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Jogos no computador: meu filho é dependente?

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VIRGÍNIA


As crianças do mundo contemporâneo crescem em mundo digital sustentado pela ênfase na tecnologia de informação, no qual estabelecem contato com algum tipo de aparelho eletrônico, seja um celular, um tablet, um computador, um videogame ou até mesmo um aparelho de DVD. Assim, acabam por substituir as amizades reais pelas virtuais e preferem se divertir aderindo ao mundo virtual (jogos eletrônicos e redes sociais) em detrimento de jogar bola e correr, ou seja, brincadeiras tradicionais nas quais envolvem exercícios físicos e a interação social com outras crianças, o que provoca questionamentos polêmicos quanto ao desenvolvimento afetivo, cognitivo e social da criança.

Como resultado disso, as crianças preferem não expressar publicamente os sentimentos, aflições e desejos por meio do mundo real. Então, isolam-se dentro de seus domicílios, já́ que a tecnologia satisfaz as necessidades. Consequentemente, não desenvolvem o vínculo afetivo entre os membros da família e ficam sem a referência de natureza emocional, que promove falta de equilíbrio entre o aspecto cognitivo e afetivo, comprometendo, inclusive, seu desempenho escolar.

Potencializada no isolamento social, a criança acaba por desenvolver o embotamento afetivo, a despersonalização, a ansiedade e a depressão, impedindo o seu pleno desenvolvimento e amadurecimento afetivo, físico, cognitivo e social. Extinguem as oportunidades de valorizarem as atividades tradicionais, tais como: brincadeira de rodas, brincadeiras de rua, o hábito de correr, pular, gritar. Uma vez que os aparelhos eletrônicos tornaram-se estímulos condicionados, isso é, o reforço natural e primário dos hábitos tradicionais são associados com os dispositivos eletrônicos.

O transtorno compulsivo, por exemplo, pode ser apresentado por crianças que não conseguem se livrar do vício em aparelhos eletrônicos e começam a sofrer de crises de abstinência quando os dispositivos são tirados. Alguns critérios podem ser utilizados para evidenciar os sintomas da dependência virtual e podem ser utilizados para determinar os efeitos concretos:

1- Saliência: quando a atividade passa a ser a coisa mais importante na vida da pessoa, podendo ser dividida em cognitiva (quando a pessoa pensa frequentemente sobre a atividade) e comportamental (quando ela negligenciaria necessidades básicas como sono, alimentação ou higiene para realizar a atividade, por exemplo). Veja se seu filho já negligenciou suas necessidades para ficar jogando. Ele às vezes imagina que está no jogo quando não está?

2- Mudança de humor: experiências subjetivas influenciadas pela atividade executada. Seu filho já se sentiu ansioso ou irritado quando não pode estar no jogo? Ele se sente mais feliz e mais contente quando finalmente consegue jogar?

3- Tolerância: o processo de precisar de doses continuamente maiores da atividade para obter as sensações iniciais. O jogador, portanto, precisa jogar sempre mais e mais. A criança sente que está passando cada vez mais tempo no jogo online? Ela se pega jogando sem estar realmente interessado?

4- Sintomas de abstinência: sentimentos e sensações negativas acompanhando o término da atividade ou a impossibilidade de realizar a atividade requerida. A criança entra em crise de ansiedade se é impedida de permanecer no jogo?

5- Conflito: conflito interpessoal (normalmente com as pessoas do entorno mais próximo, como família) ou intrapessoal provocado pela atividade executada. É frequentemente acompanhado por uma deterioração dos resultados acadêmicos ou profissionais, abandono de antigas atividades, e assim por diante. A criança às vezes briga com as pessoas mais próximas (família, amigos) por causa do tempo que passa jogando? A família, amigos, atividades sofrem por causa do tempo que a criança passa jogando na internet? Ela mesma fracassa ao tentar limitar o tempo que passa jogando?

Não é preciso limitar totalmente uso de aparelhos eletrônicos, mas é importante oferecer outras atividades para estimular desenvolvimento da criança. No entanto, tente evitar que crianças de até dois anos de idade sejam expostas a celulares e tablets. Dos três aos cinco anos, as crianças podem usar esses aparelhos durante meia hora por dia, desde que a distração eletrônica não substitua as brincadeiras ao ar livre e a interação com os pais e amigos da mesma idade. 

A partir de cinco anos, uma hora por dia é o ideal, mas somente após a realização de todas as atividades de sua responsabilidade. A partir dessa idade, é preciso observar a função dos eletrônicos no contexto familiar e se eles não estão a serviço do excesso do individualismo.

Responda as questões acima e não se assuste se você se identificar com algumas afirmativas. Prevenir é melhor remediar.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 2 e casada com 1 há 36 anos! Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior! Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de capítulos de livros, artigos e Pesquisadora do CNPq.

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