Comportamento

Síndrome do impostor: você não é uma fraude


Em 2016, a atriz americana Jodie Foster, 54, dona de duas estatuetas do Oscar, declarou sofrer de uma estranha sensação: a de se sentir uma fraude. Prestigiada também como cineasta e produtora, ela disse que chegava a acreditar que, a qualquer momento, os membros da Academia bateriam em sua porta, pedindo de volta os prêmios. A também atriz Emma Watson, 27 anos, estrela da saga Harry Potter e grande ativista pelos direitos das mulheres, revelou sentir o mesmo. “Parece que, quanto melhor me saio, maior é o meu sentimento de inadequação, porque penso que em algum momento alguém vai descobrir que sou uma fraude e que não mereço nada do que conquistei”, disse em entrevista à revista Rookie. 

Michelle Pfeiffer, 58, também tinha medo de ser “descoberta”. “Sempre achei que estava arruinando os filmes dos quais participei, fazendo um trabalho terrível”, disse à revista Interview. Para algumas pessoas, essas declarações podem parecer excesso de modéstia, baixa autoestima e até excentricidade das estrelas de cinema. Mas a angústia dessas atrizes é um mal típico de pessoas bem-sucedidas, principalmente mulheres, que não se acham merecedoras do sucesso alcançado. Pense bem: você já sentiu que nunca é boa o bastante para as tarefas delegadas a você? Acredita que os elogios que recebe não são merecidos? Acha que a qualquer momento vão descobrir que você é uma farsa? Se você se identificou com algum desses itens, pode ser que esteja sofrendo do mesmo mal: a síndrome do impostor. 

Apesar de todas as realizações alcançadas, as pessoas que sofrem dessa síndrome, de forma permanente, temporária ou frequente, parecem incapazes de internalizar o sucesso. Sem se importarem com provas externas de sua competência, essas pessoas permanecem convencidas de que não merecem o sucesso alcançado. E esse é um fenômeno comum. A advogada Maria Luiza Cavalcante Lima, 47 anos, é vítima da síndrome. Ela já ocupou grandes cargos, mas nunca conseguiu curtir o próprio sucesso. "Fui criada por um executivo que, mesmo quando eu tirava nota dez, dizia que ser boa aluna não passava da minha obrigação. Comecei cada vez mais a acreditar nisso. Eu não levava crédito do que eu fazia. Enxergava elogios como gentileza, e não como reconhecimento."
 
Foi após a maternidade e depois de passar dois anos fora do mercado que a advogada começou a perceber os primeiros sinais da síndrome. Ela conta que, ao voltar ao trabalho, sentia que tinha que fazer ainda mais e ser ainda melhor por causa da pausa. Na época, ao se envolver com um movimento que previa aumentar a participação de mulheres em cargos executivos, deparou-se com histórias similares à dela. "É uma coisa muita arraigada. O maior perigo disso é a autossabotagem. Você não se sente merecedora. Não se sente capaz, então se sabota”, diz. 
 
A advogada atribui muitos desses sentimentos não só a personalidade da vítima da síndrome, mas também a fatores externos, como a criação e a própria realidade do mercado. “Em termos de carreira, os homens são incentivados a serem ambiciosos. Já as mulheres ambiciosas são vistas como defeituosas. Quando se trata de promoção, os homens são vistos como potencial. Pensam no que eles podem entregar no futuro. Mas o mercado enxerga a mulher como resultado. Pensam no que ela já entregou. A régua da mulher é muito mais alta."
 
Para se livrar da síndrome e conseguir alavancar a vida profissional e pessoal, Maria Luiza faz um tratamento multidisciplinar, que envolve terapia e sessões com uma personal branding. “É preciso buscar o autoconhecimento para entender as causas desse fenômeno e assim conseguir superar.” 
 
Não é baixa autoestima
 
Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Dominicana da Califórnia, a síndrome do impostor chega a atingir 70% dos profissionais bem-sucedidos, especialmente mulheres e estudantes de pós-graduação. Já alguns estudos psicológicos sugerem que duas em cada cinco pessoas já se sentiram impostoras em algum momento de suas vidas. 

Essa sensação não ocorre de maneira muito explícita, então a pessoa nem sempre consegue explicar o que sente. Responsável também por procrastinação de projetos, a síndrome pode parecer um problema de autoestima, mas é muito mais complexa do que isso. É o que exemplifica a empresária Pauline*, 45 anos, que sempre trabalhou na área de comunicação. "Identificar a síndrome não foi um processo muito fácil. Eu confundia com baixa autoestima. Foi apenas quando decidi trabalhar minha marca pessoal que ouvi falar sobre esse fenômeno e consegui identificar a síndrome."

Pauline conta que o fenômeno a levava a acreditar que nada que fazia tinha valor. "Sempre fui muito perfeccionista. Não dava valor aos meus feitos. Eu me autossabotava, perdia oportunidades, negociações. Não conseguia rebater argumentos e críticas, principalmente contra o sexo masculino.” Para a empresária, o "machismo presente na sociedade e no mercado é um fator externo que contribui para que as mulheres sejam grandes vítimas da síndrome”. 
 
Em busca do autoconhecimento 
 
De acordo com a psicóloga Renata Falco, que realiza assessoria em comportamento com vítimas da síndrome do impostor, esse fenômeno costuma aparecer em momentos de transição e de novos desafios. "Inconscientemente, as pessoas com a síndrome começam a adotar comportamentos que funcionam como mecanismos de defesa e enfrentamento. Elas passam a não valorizar o sucesso alcançado.”

No processo de assessoria em comportamento, Renata se coloca no papel da vítima da síndrome, ajudando o paciente a analisar a própria conduta. “É preciso despertar a consciência e gerar a autossustentabilidade. Assim, ela vai conseguir identificar o que a incomoda, o que faz bem e perceber o ambiente com uma visão mais saudável”, explica.

De acordo com Pollyana Oliveira, consultora especializada em desenvolvimento humano, a síndrome traz consequências como ansiedade, baixa autoestima, depressão e perda de produtividade. "No que se refere ao físico, ela pode se refletir em perda ou aumento repentino de peso. Por isso, é imprescindível buscar ajuda de um profissional, psicólogo, médico, coach e, acima de tudo, buscar o autoconhecimento. Em casos mais graves, o tratamento pode ser medicamentoso e acompanhado de terapia", diz. 

Pollyana sugere que o fortalecimento da marca pessoal, através do personal branding, como forma de conhecer os limites e tornar as potencialidades visíveis e reais, é uma excelente ferramenta no tratamento da síndrome. "Nesse processo, a pessoa irá tomar consciência das suas potencialidades, aprender a se perceber como profissional de destaque, de forma a gerar orgulho e respeito. Em resumo, descobrir que não precisa acertar sempre", diz.

*Nome fictício a pedido da entrevistada

Sinais da síndrome do impostor

As vítimas da síndrome do impostor são pessoas que nunca creditam seu sucesso à inteligência, competência ou habilidade pessoal. Além disso, têm sensação de que, a qualquer momento, a incompetência será descoberta. Alguns sinais da síndrome são mais aparentes, já outro nem tanto. De acordo com Pollyana Oliveira, especializada em desenvolvimento humano, "não se devem avaliar os sintomas de forma isolada".  A consultora listou os mais comuns:
 
1. Você se tornou uma workaholic insana

Aquele sentimento de que você poderia ter feito mais é bem característico da síndrome. Você trabalha horas a fio e, o que é pior, nem sente cansaço.
 
2. Você tem se esforçado menos que antes

Não se importa com questões que anteriormente eram essenciais no seu dia a dia e, sem motivo aparente, simplesmente deixa de resolvê-las.
 
3. Você adota a discrição absoluta ou parte para mudanças desenfreadas

Essa mudança repentina de comportamento requer um nível de atenção redobrada, haja vista que pode comprometer sua imagem profissional.
 
4. Você usa o seu carisma para conseguir aprovação

Quando passa a não se sentir capaz de executar ou gerenciar alguma atividade, começa a utilizar alternativas primitivas dos seres humanos para conseguir o que precisa. 
 
5. Você procrastina tudo que pode

Procrastinar é uma arte desenvolvida para evitar o embate com questões para as quais não se sente preparada ou que não gosta de fazer. O problema maior é em relação ao grau de ansiedade que irá colocar em risco tudo o que foi construído. 
 
6. Você nunca termina nada

Deixar algo inacabado é um balde de água fria na sua motivação para começar algo novo. 
 
7. Você apela para a autossabotagem no trabalho

Sintoma comprometedor de uma carreira, já que nem sempre as pessoas têm consciência do que fazem e, quando se dão conta, passam por um nível de autoquestionamento exaustivo na busca de uma solução.

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