Moda

Busca da simplicidade

Agência Fotosite


A moda como expressão de arte não tem mais tanto espaço. O foco agora é ser comercial. Pelo menos essa foi a proposta da edição mais recente do São Paulo Fashion Week. Em sua 43ª edição, a semana de moda mais importante da América Latina buscou levar as roupas das passarelas para as ruas o mais rápido possível. Afinal, em um mundo onde quase tudo é imediato, o consumidor não quer esperar. Seguindo o método "see now, buy now" (“veja agora, compre agora”, em tradução livre), os estilistas levaram as roupas diretamente da passarela para as lojas. 

Tendências?

As grifes que apresentaram as coleções de inverno na semana de moda paulista optaram pela simplicidade, buscando não só peças mais próximas do que já é visto nas ruas, mas também desfiles mais limpos e reais, distantes das apresentações e looks cênicos que eram vistos nas passarelas há algum tempo. 

Assim como as colunas brancas, sem nenhuma (ou quase nenhuma) decoração, as roupas e as apresentações também foram mais básicas. "Antes, era imperativo uma marca fazer grandes desfiles. Agora você pode ter sucesso sendo pequeno, tendo um formato de venda e apresentação diferentes. É isso o que vivemos nesse momento", diz Paulo Borges, fundador e diretor criativo do SPFW.  "A mudança é inevitável. O que funcionava até ontem já não funciona mais. Estamos construindo o futuro e aprendendo juntos", completa. Ao que parece, esse realmente é um momento de reflexão para a moda, como afirmou a estilista da marca UMA, Raquel Davidowicz. "É hora de se reprogramar.” 

Veja e compre

Críticos de moda afirmam que a prática "see now, buy now" leva as marcas à apresentação de nenhuma novidade ou de coleções com pouca criatividade, já que os estilistas optam por peças que estão nas ruas, mas com um novo olhar. Na SPFW, muito do que foi visto na temporada de moda passada é aposta para o inverno 2017. 

Além disso, o método também causou baixas significativas na semana de moda. Os estilistas Ronaldo Fraga, Reinaldo Lourenço, Glória Coelho e Valdemar Iódice, quatro dos mais importantes e tradicionais participantes, não marcaram presença este ano. Segundo a assessoria de Fraga, o desligamento é temporário e justificado por uma viagem agendada antes da divulgação das datas da semana de moda. Já Reinaldo e Glória disseram que não se adequaram ao esquema "veja agora, compre agora". Foi esse também o motivo da ausência de Valdemar Iódice. 

Em contraponto, grifes que desfilaram colocaram as coleções à venda rapidamente, como Carol Bassi, Lilly Sarti, Giuliana Romanno, Tigresse, A. Niemeyer e Amapô. Algumas simultaneamente ao desfile. Outras, poucos dias depois de cruzarem a passarela. 

A edição de março trouxe seis novas marcas: Alexandrine com coleção assinada por Dinho Batista, as paulistanas A.Niemeyer, TIG e Two Denim, a mineira Fabiana Milazzo e Sissa, nova marca de Alessandra Affonso Ferreira, ex-Isolda. Além dessas, outras seis marcas integram a temporada com desfiles no line-up do Projeto Estufa, um espaço para dar projeção às reflexões em torno do futuro da moda. 

Simplicidade também na beleza

Além das roupas, as semanas de moda, como o São Paulo Fashion Week, também lançam tendências de beleza. Seguindo a onda de simplicidade, a aposta em maquiagem também foi o básico. 

“O momento pede ‘cara de saúde’, pele com brilho natural e rubor de quem acabou de praticar atividade física. A pele da temporada continua a ter cara natural, mas agora deixa de ter o aspecto de crua e passa a ser saudável. Se alguém parar e comentar: ‘Que linda a sua base’, volta pra casa que deu errado", afirma Fabiana Gomes, maquiadora sênior da M.A.C no Brasil. Ela ensina a receita para acompanhar a tendência dos backstages: crie uma camada de iluminador na pele antes de aplicar a base, que deve ser leve. Já o blush é “aplicado para não parecer blush, e sim um rubor natural”. 

Para o cabeleireiro e maquiador Celso Kamura, apesar de a beleza natural ser aposta nas passarelas, ela não deve chegar às ruas imediatamente. "Falando sinceramente, acho que a beleza não anda com a moda. Ela não tem essa velocidade, as pessoas demoram um pouco mais para assimilar. A beleza natural já está aparecendo há três ou quatro coleções. Ela é uma realidade e é bonita. Deixa as pessoas mais bonitas ao valorizar aquilo que você tem de uma forma natural. Mas na vida real é diferente, as mulheres estão superpreocupadas com maquiagem. Apesar de o cabelo natural já ser uma realidade, a maquiagem natural ainda não é."
  
O que foi visto na passarela

Confira os destaques do SPFW:
 
Seios à mostra 
 
A nudez feminina foi valorizada por marcas como Juliana Jabour, Ellus, À La Garçonne, Animale e TIG, que optaram por levar para as passarelas modelos com os seios expostos. No entanto, a abordagem não tem conotação erótica ou sexual, e sim um posicionamento na linha de “meu corpo, minhas regras”.
 
Moletom

O ícone do esporte atravessou fronteiras. Nesta temporada, o moletom aparece misturado a outros estilos e também ganhou camadas e mais camadas de babados. 

Nostalgia
 
A Ellus comemorou 45 anos de mercado com um desfile cheio de referências à história da marca e um casting com veteranas, como Carol Trentini, Mariana Weickert, Renata Kurten, Carol Ribeiro e Bruna Tenório. Além da memória de marca e tendências de décadas passadas que voltam com uma pegada mais moderninha, muitas peças têm cara de “já te vi". Afinal, o mercado da moda, como outros, já descobriu que os millennials têm um gosto forte por sentir saudade daquilo que gostariam de ter vivido.
 
Manifesto

Em um manifesto contra o assédio sexual, modelos entraram na passarela da marca Amir Slama com frases de empoderamento, como "minha saia não é um convite" e "me visto como eu quiser", escritas no corpo. As frases eram vistas apenas em fotografias tiradas com flash como parte da campanha ‘Sexismo Invisível’.
 
Brasilidade

Tudo indica que o Brasil vai vestir a moda. Diversas grifes trouxeram elementos da cultura nacional e usaram os diferentes comportamentos regionais, paisagens e outros ambientes como inspiração para as coleções. Esse foi o caso, por exemplo, da marca Isabela Capeto, que buscou inspiração no Cariri cearense.
 
Jaqueta

A peça sempre consegue modernizar o visual. A modelagem oversized traz ainda mais irreverência. A parka, herança do sportswear, é o casaco da vez. Ela chega com o  poder de atualizar a alfaiataria. Sem dúvida, é o plus do momento.

 

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