Moda

Caçadores de tendências

Foto montagem: Divulgação / Getty Imagens / Shutterstock


Um livro que muita gente está lendo, uma cor de batom que está em alta, o tênis que é febre entre a criançada. Já parou para pensar por que isso acontece? Antes mesmo de esses produtos e serviços chegarem até você, profissionais observam muito, pesquisam, analisam e antecipam os gostos das pessoas. Estamos falando do cool hunter, traduzindo, o caçador de tendências.
 
A profissão ainda não é tão conhecida no Brasil, mas aos poucos vem ganhando espaço. Segundo a cool hunter Sabina Deweik, que também é jornalista, professora e pesquisadora de comportamento, o profissional deve enxergar os 360 graus.  “Ele tem a capacidade de fazer a leitura dos cenários e dos sinais que as pessoas dão”. Sabina explica que muitas pessoas não sabem dizer ou não percebem o que desejam, mas são as expressões e ações que dão pistas sobre o que elas realmente buscam. E aí entram os olhos atentos do cool hunter, que tem a difícil missão de detectar aquilo que não é dito. 
 
Mas a profissão não se restringe a somente observar. Este é apenas o primeiro passo da metodologia. A segunda parte, que exige experiência e ainda mais poder de leitura do implícito, é fazer uma interpretação daquilo que foi visto. “É preciso entender quais valores estão por trás do que se está olhando”.
 
Não é só tendência de moda

Apesar de muita gente achar que a profissão é ligada apenas à moda por conta das tendências apresentadas nas passarelas, Sabina garante que vai muito além disso. Áreas como cultura, design, cinema, música e tecnologia podem ser antecipadas, o que torna a profissão um trunfo para empresas que estão desenvolvendo novas estratégias, por exemplo.
 
Por meio desse trabalho, a marca contará com a antecipação de tendências. Sabina, que já trabalhou para diversas empresas e marcas, citou o projeto estratégico que fez para uma empresa de sandálias no Brasil. Ela e um grupo de profissionais perceberam que era preciso inserir uma certa brasilidade nos produtos. “Através de pesquisas, vimos como isso era essencial”. Assim, os chinelos começaram a ter a bandeira do Brasil, o que satisfez clientes brasileiros e estrangeiros. Não era apenas a compra de um calçado, mas o imaginário do brasileiro e do calor das terras tupiniquins. 
 
Ou seja, o cliente da instituição dará sinais do que gostaria de ter ou de usar, e é o caçador, com seu olhar atento, que será capaz de identificar isso. Dessa forma, a empresa poderá tomar decisões mais certeiras para o negócio.
 
Como nasce a tendência?
 
A aderência a uma tendência pode ser gradativa em um grupo de pessoas. Os tipos principais são:

INOVADORES – São os primeiros a aderir a uma nova tendência. Gostam de experimentar! 
SEGUIDORES – Acompanham o primeiro grupo logo em seguida e também são pessoas consideradas inovadoras.
RETARDATÁRIOS - Há aqueles grupos que precisam de tempo para confirmação e ainda os mais tardios que, muitas vezes, quando algo já começa a ficar menos em evidência, é que vão usar ou comprar. 
CONSERVADORES – Esse grupo dificilmente adere à tendências.

"Prever tendências é uma processo criativo"

Com escritórios em vários continentes, a empresa WGSN é uma das companhias especializadas na previsão de tendências de moda, cultura e outras áreas. Ludovica entrevistou uma das especialistas da marca, Camile Minerbo, que traz dicas valiosas sobre as tendências para 2016.
 
Como surgem as tendências? 

As tendências são sempre criadas por pessoas, de modo que a previsão de tendências é principalmente sobre observar pessoas, seus hábitos e ao que eles estão expostos. Começamos sempre a partir das motivações humanas – desejos que temos como seres humanos e necessidades humanas – que são parte natural do ser humano, mas também muito instigadas pelo contexto social em que estamos inseridos. Essas estão na base. Mas, apesar de termos necessidades naturais, temos também desejos e necessidades que são influenciadas por um cenário, por um contexto social. Eles servem de pano de fundo, e acabam gerando tendências de comportamento. Essas tendências se manifestam nas ruas através de expressões. É a partir do entendimento dessas expressões que começamos o processo de mapeamento de tendência. Antes disso, as necessidades humanas e o contexto social são apenas instigadores das tendências que começam a se manifestar nesse nível. Uma vez que as expressões começam a se tornar recorrentes, elas viram uma tendência. Isso é a forma com que as pessoas respondem às necessidades dentro de um contexto de um determinando momento.  
 
Como é a profissão de cool hunter? Que características o profissional deve ter? 

Na WGSN temos uma equipe de mais de 150 especialistas que rastreiam diariamente os principais movimentos culturais do mundo. São informações que vão desde exposições de arte, feiras, desfiles, festivais de música e eventos esportivos. Assim, este profissional deve ser observador, megacurioso, além de ter disposição para pesquisar em áreas fora de seus interesses pessoais. 
 
Como funciona este trabalho?

Essa equipe se reúne a cada seis meses para apresentar o que cada um viu de mais relevante em sua área de atuação e em sua parte do globo. Esses dados são filtrados e analisados, para então serem traduzidos em informações e tendências com um viés bem estético. É aqui que vemos que as respostas do amanhã estão nas ações diárias. Olhamos as pessoas, suas atividades, seus desejos e esperanças para o futuro. Este imenso conteúdo é então analisado pela equipe, que procura por conexões entre as mais variadas informações e manifestações, para então chegar a quatro macromovimentos que guiarão o design e comportamento para os próximos dois anos. E, assim, conseguimos entender o espírito do tempo.  Prever tendências é um processo criativo. Trata-se de conectar pontos de informação, observando os movimentos nas atmosferas culturais, no comportamento das pessoas, as novas tecnologias etc. A análise de tendência consiste na observação e decodificação de padrões, ou seja, de movimentos que ainda estão no início, discretos, de comportamentos de consumo e que têm maior ou menor grau de aderência, ineditismo e aceitabilidade a diferentes pessoas. 
 
Por que buscar tendências? 

A moda e todos os outros mercados têm uma necessidade de novidades. Existe uma sede pelo novo e é assim que a moda se movimenta, evolui. Um exemplo disso é a tendência dos anos 70. Fazia tempo que ela não aparecia e agora está muito forte, mas quem já não está meio enjoado, em busca da próxima grande tendência? É importante estudar para estar a par do que seu consumidor vai querer.  Qualquer área que tem sede pelo novo é área para um cool hunter. Por exemplo, automóveis: não adianta você lançar um carro nos próximos anos que consome só gasolina e polui muito, porque a tendência aponta para a busca pela sustentabilidade e o cuidado com o meio ambiente.
 
Em 2016, o que é tendência? 

Uma das ideias-chave para 2016 é o You Define You. Ela se baseia em uma atitude positiva em que nós somos livres para ser o que quisermos. Nunca houve um melhor momento para sermos nós mesmos! A identidade de cada um está mudando e as definições-padrão estão se dissolvendo, então quem você é e o que você quer só depende de você.Essa ideia já havia sido apontada na nossa macrotendência Soft Pop, que são aquelas feitas com dois anos de antecedência, e está sendo bem confirmada junto ao movimento trans e ao feminismo. Já vemos que muitas marcas estão começando a colocar seus pés nessa fluidez de gêneros, como a Louis Vuitton, que chamou Jaden Smith para estrelar a nova coleção feminina, ou ainda a Givenchy, que apresentou a modelo transgênero Lea T em diversas campanhas. 

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