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Você conhece a tríade da mulher atleta?

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Pouca gente sabe, mas existe uma especialidade da odontologia que cuida de atletas oficiais e não oficiais, que é o meu caso. Risos. Brincadeiras à parte, a odontologia do esporte vai muito além do que as pessoas imaginam. Mas o que vem a sua mente quando você imagina esse profissional? Tenho certeza que você se lembra de uma placa bucal de proteção tipo aquelas usadas nas lutas de MMA, não é mesmo?
 
É por isso que convidei a minha amiga, a cirurgiã-dentista Clara Padilha, para nos colocar a par de como prevenir e manter a nossa saúde, praticando atividade física diariamente. Confira:

Você conhece a tríade da mulher atleta? 

O exercício físico regular modifica a fisiologia humana. Ainda bem! Com o exercício físico regular melhoramos nossa resposta imune e a variação hormonal é salutar e esperada. E olha que só aquela uma hora por dia, três vezes por semana, por exemplo, já é considerada esse tipo de exercício. Porém, quando a atividade se intensifica, essas modificações na fisiologia podem ser prejudiciais para o atleta.

No caso das mulheres, algumas atletas podem apresentar um conjunto de sinais e sintomas. Esse conjunto é chamado de tríade da mulher atleta, já que apresenta três situações específicas e interligadas: distúrbios alimentares, amenorreia e alterações e fraturas ósseas. Mas como o exercício pode desencadear essa situação? 

Bom, as hipóteses mais fortes para explicar a razão do estabelecimento da amenorreia, induzida pelo exercício, são de que as endorfinas produzidas durante a atividade física e o treinamento diário, quando mantidas em níveis elevados, inibem a produção do hormônio liberador das gonadotrofinas (GnRH) pelo hipotálamo. Com isso, elas inibem todo o eixo hormonal feminino (hipotálamo-hipófise-ovário). A amenorréia hipotalâmica está associada à perda de densidade óssea. 

A outra hipótese, e provavelmente as duas coexistem, é de que as endorfinas diminuem a produção de dopamina no núcleo hipotalâmico. Como a dopamina inibe a produção de prolactina (o hormônio que induz a produção de leite durante amamentação), se ela não está presente, a prolactina aumenta, mandando sinais para o corpo e diminuindo a produção de GnRH, Isso gera a situação em que a mulher atleta não menstrua. 

O mais preocupante, porém, é o aparecimento de osteopenia e osteoporose em atletas, que chega a ser três vezes mais frequente do que no restante da população, apesar de todo o exercício físico. A osteoporose pode afetar a densidade óssea, inclusive dos ossos maxilares. Essa má absorção se reflete na fixação dos dentes, o que pode causar a perda deles.

O exercício físico atua no osso por efeito direto, via força mecânica ou indireta, mediado por fatores hormonais. O estrógeno e a progesterona atuam na remodelação óssea, porém por mecanismos ainda não totalmente elucidados. A atividade esportiva intensa pode conduzir à osteoporose, ao comprometimento da pulsação do hormônio gonadotrópico (GnRH) e à disfunção gonadal no indivíduo jovem.

Já os transtornos alimentares relacionados ao exercício podem se apresentar de diversas maneiras, como restrição da ingestão, anorexia, bulimia, ortorexia e outras. Eles são desencadeados pela necessidade de manter um baixo peso corporal. O termo anorexia atlética descreve o contínuo comportamento alimentar de atletas que não obedecem aos critérios para um distúrbio alimentar verdadeiro, mas que exibem pelo menos um método doentio de controle ponderal. Isso o inclui jejum, a indução de vômito e uso de pílulas diuréticas, laxativas (que também prejudicam a absorção correta dos nutrientes).

As atletas de maior risco para essa tríade são aquelas que participam de esportes que valorizam o controle do peso, como ginástica, patinação artística, saltos ornamentais e dança. Ou, ainda, de modalidades de endurance, como corrida de longa distância e ciclismo. Mas a tríade não é uma exclusividade de atletas de alto rendimento. O grande problema dessa situação clínica é que ela é frequentemente negada, não diagnosticada e subnotificada. 

Todos os sinais e sintomas podem passar despercebidos por um olhar não treinado para captá-los. Quando a situação já está bem crítica, geralmente apresenta fraturas ósseas e temos um quadro de reversão mais complicada. Não é a toa que esta tríade é responsável pela morte de muitas atletas por ano no mundo. Mas o cirurgião-dentista vem ganhando força no diagnóstico interdisciplinar desse quadro. Como?

O dentista é um dos primeiros profissionais a identificar os transtornos alimentares devido ao surgimento de efeitos colaterais na boca, como o desgaste erosivo no esmalte do dente. Os relatos do paciente geralmente não se associam com clareza ao distúrbio alimentar em si: relatam dor, inchaço da glândula parótida, secura na boca (que também pode estar associado ao uso de medicamentos). Indo mais além, pode levar a dores musculares e de cabeça, pois o desgaste remove os pontos de contato adequados entre os dentes.

O quadro clínico da falta de saliva, associado a episódios recorrentes de vômito, permitem que se estabeleça uma perda de tecido mineral do dente, deixando o aspecto erosivo evidente. Associado a essa situação está à escovação compulsiva e com força, que as atletas fazem após o episódio e que não contribui em nada para preservação da estrutura dentária, gerando abrasão.

É importante salientar que essa situação não ocorre apenas em atletas de alto nível competitivo, atingindo várias atletas adolescentes ao redor do planeta. Também é necessário encarar o aspecto psicológico da tríade, pois muitas vezes ela é acompanhada de uma pressão interna e externa em relação a padrões corporais específicos, diferentes das características naturais individuais. 

O cirurgião-dentista não diagnostica a tríade da mulher atleta em si, mas contribui de maneira bastante significativa para a junção das peças desse quebra-cabeça. E é por isso que no esporte trabalhamos em equipe, pois essa é uma situação delicada e que exige muita atenção dos profissionais, técnicos e familiares envolvidos. 

*Clara Padilha (@dra.clarapadilha) é cirurgiã-dentista, especialista em Endodontia e Odontologia do Esporte, mestre e doutoranda em odontologia pela UFSC, membro da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte, autora dos livros “Protetores Bucais Esportivos” e “Odontologia do Esporte - um novo caminho, uma nova especialidade”. Acesse: www.clarapadilha.com.br

*Karyne Magalhães é cirurgiã-dentista, habilitada em Laserterapia e qualificada no tratamento da Halitose, vice-presidente da Associação Brasileira de Halitose (Abha), membro da Associação Brasileira de Odontologia (ABO-GO) e membro da Sociedade Brasileira de toxina botulínica e implantes faciais (SBTI). Acesse karynemagalhaes.com.br e botoxgoiania.com.br.

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