Educar faz parte!

A busca do título de bons pais e suas consequências

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Sentada em uma área de alimentação, notei que um rapaz se aproximava de mim. Logo ele se identificou como um pai interessado na criação dos filhos e, por isso, buscava leituras constantes. Entre elas, meus artigos. Agradeci e me coloquei pronta a ouvi-lo. Percebi que ele precisava falar. Entre tantas partilhas feitas, vi uma ansiedade por ter um parecer sobre a sua postura paterna. Ele se preocupava em me contar detalhes de como se dedicava aos filhos e, como parte da dedicação, abria mão de um período do trabalho só para acompanhá-los nas aulas extracurriculares. 

Ouvia atentamente cada palavra, lia cada expressão e me surpreendia com a análise de sua leitura corporal: ele queria muito ouvir ou receber uma aprovação. Durante a exposição longa, fui refletindo sobre tudo o que me falava e tudo o que estava por trás de cada palavra. Ali, eu me vi diante de um pai que, por trás de uma aparente dedicação, tinha uma vontade enorme de satisfação pessoal. Talvez ele ainda não tivesse se dado conta de que se realizava com esse papel. Havia muito mais desejo pessoal. Ele estava sendo um pai dedicado, com certeza, mas ao deixar um período acompanhar os filhos em tudo, não tinha se dado conta que isso não era uma necessidade dos filhos e, sim, dele. 

Os filhos precisam de espaço para crescerem. Estou certa de que ser presente não significa estar presente em tudo. Vejo muitos casos de pais que “abrem” mão das profissões e depois cobram muito caro dos filhos. E o desejo inicial de ser aquele superpai vai embora quando os filhos começam a crescer e buscar o próprio espaço. Nesse momento, poderão surgir as cobranças, que soarão como um preço aos filhos. Uma conta apresentada sem que o filho tenha “feito a encomenda”.

A frustração com que o pai fica soa, para ele, como ingratidão da cria. E isso é muito ruim para a relação. Os pais precisam ter maturidade quando fazem a escolha de abrir mão de algo pelos filhos e, da mesma forma, quando os filhos escolhem ter mais espaço. Percebo pais que acabam por extrapolar o papel e até impedem os filhos de crescerem. Acredito na autonomia vigiada e não “realizada” por eles. Ter compromissos paternos não impede os filhos de terem compromissos escolares e esportivos paralelos. Ter horários de trabalho não impede os filhos de terem horários de estudo. Os pais podem monitorar à distância e se fazerem presentes em reuniões, apresentações, campeonatos etc. 

Outro alerta importante é estarmos atentos se, como pais, não estamos nos realizando naquilo em que matriculamos nossos filhos. Muitas vezes, vamos conduzindo as crianças para atividades que sempre desejamos realizar e não tivemos oportunidade ou capacidade. Vejo crianças cansadas de certas atividades extras, mas que não ousam pedir para parar, para não decepcionarem os pais, porém estão sofridas e desgastadas por isso.

Novamente o desejo pessoal sobrepondo-se à necessidade ou vontade da cria. Estar atentos à leitura de nossas ações é muito importante. O que estou fazendo, de verdade, é por acreditar que é necessário ou para realizar um sonho interno? O que é ser pai presente? As minhas ações são por amor ou terão um preço? Se há um preço, eu, como pai, sinto essa conta pesada ou passarei o “boleto” para o meu filho pagar (mesmo que ele não tenha feito o pedido)?

Como pais, precisamos pensar sobre as nossas concessões. Até que ponto não faço algo muito mais pelo título de bom pai, receoso do fracasso, ou pelo desenvolvimento dos filhos? Os filhos realmente precisam da nossa presença 24h ou necessitam de espaço para se relacionar e conviver? Consigo conhecer meu filho pela leitura dos profissionais que convivem com ele ou tenho que ter meu olhar projetado o tempo todo e só o meu parecer revela quem ele é?

Acredito que o mundo tem gerado constantes exemplos de como devemos ser hábeis na criação de nossos filhos, mas o maior exemplo ainda é o que ocorre dentro de nosso lar: respeito, afeto, valores e princípios exercidos no seio familiar. Não é evitando contato sem vigilância que fará seu filho se desprender dos ensinamentos, pelo contrário, é dando oportunidade de ele estar em variados locais que ele exercerá o que aprende com os pais.

Pais produtivos promovem exemplo para os filhos. Pais produtivos gerarão filhos produtivos também. Pais cuidadosos gerarão filhos cuidadosos. Pais presentes permitirão que os filhos desejem a presença nos momentos importantes. Esteja presente fisicamente nos momentos importantes. Essa presença é suficiente. Nos demais momentos, permita que a sua presença esteja internalizada pelos ensinamentos em seu filho. 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é graduada em Pedagogia pela UFG, especialista em Psicopedagogia e Terapia de Família e Casais. Trabalha como diretora pedagógica escolar, com uma experiência de mais de 28 anos em educação. É palestrante e terapeuta familiar e de casais. Acompanhem também o blog fabiolasperandiodocouto.blogspot.com.br.
 
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