Educar faz parte!

A dor do outro na visão de uma criança

Shutterstrock


Hoje quero compartilhar uma carta de uma criança de 11 anos. É impressionante a visão dela sobre uma situação que ocorre em sala. Leia. 

Queridíssima professora,

Eu quero falar com você já faz um bom tempo, mas antes eu queria ter a prova e hoje tive a prova clara. O assunto que eu quero falar com você é sobre a Maria*, da nossa sala. Há um bom tempo tenho notado que muitos da sala não têm a aceitado muito bem. Quero dizer, eles não a têm tratado como ela merece. Reconheço que a Maria pode, às vezes, ter dificuldades na escola, digo, nas provas e tarefas. Reconheço que ela tem, pois já me falou, déficit de atenção, mas eu fico pensando: será que só por isso alguns alunos não a tratam bem?

Está sendo muito difícil escrever esta carta, pois eu estou chorando. Eu fico arrasada de ver que, quando ela dá uma sugestão ou uma opinião, muitos começam a reclamar. Nesta hora, meu coração vai se partindo cada vez mais. Hoje, na hora da votação, vi que poucas pessoas votaram nela (eu votei). Daí, fiquei pensando: será que eles têm raiva dela ou medo de que ela estrague alguma coisa? Fico realmente muito triste ao olhar para ela e ver, pensar, que ela nunca, jamais, merece ser tratada assim.

Desde que você começou a dar aula para mim percebi que as pessoas devem ser amadas e respeitadas, seja qual for essa pessoa. Você sempre me fez ver que as pessoas são como uma joia preciosa e precisamos cuidar delas. Você me fez enxergar um novo mundo, algo que eu nem poderia imaginar e é por isso que eu queria desabafar sobre isso com você, porque eu sei que todos devem ser respeitados.

Um grande beijo, Letícia *.

Após ler a carta, chamei a menina para conversar. Conversamos sobre “os dois lados”. Refletimos sobre a postura de alguns colegas e sobre as atitudes da amiga citada. Mostrei o trabalho que a escola realiza em relação ao déficit de atenção, mas principalmente sobre a conduta. Maria tem recebido ajuda sobre o comportamento agressivo, que não tem nada a ver com as dificuldades escolares. Exemplifiquei alguns atos que geraram um círculo vicioso entre Maria e a turma. Meu objetivo era tirar a Letícia da dor. Ampliar o olhar para a situação, formarmos uma rede de proteção a todos. 

No final da nossa conversa, já tínhamos traçado, juntas, ferramentas de ação. Letícia saiu feliz por se sentir considerada. Sua dor foi acolhida, porém ela se sentiu muito mais aliviada por entender que a situação era mais ampla, no entanto, cuidada pela escola. Aqui, me deparei com uma criança empática, proativa e amorosa.

Lendo a história, onde você encontra seu filho: no grupo da Letícia ou no grupo que complementa o papel da Maria (ela agride, ele devolve)? Faço um convite, aliás dois:
 
1 – Procure conhecer mais seu filho. 
2 – Aprenda com as crianças. Assim geramos um mundo melhor.

*Os nomes das crianças foram trocados por nomes fictícios. 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 
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