Educar faz parte!

‘Estou sentindo muita raiva’

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“Estou sentindo muita raiva”, me disse Fabiana. Com essa frase carregada de indignação começamos uma conversa. Ela estava indignada com o próprio sentimento. Aquela menina linda, muito meiga, mas também cheia de personalidade, mostrava-se inquieta com o que sentia. Parecia não saber o que fazer com essa raiva ou que não podia se permitir sentir assim. Ela me contou sobre o que provocou a danada raiva. À medida que falava, ora se enfurecia, ora permitia algumas lágrimas correr no rosto. Fabiana se julgava o tempo todo por não conseguir se compreender. 

Essa doce menina, que se dizia com raiva do pai, na verdade estava decepcionada com ele e com muita raiva de si mesma. Fabiana estava decepcionada porque o pai fez uma promessa e não cumpriu. Ela sempre acreditava nele e não conseguia admitir que ele falhara. O pai havia prometido nunca mais atrasar para buscá-la, prometeu priorizar a união dos dois, mas não conseguiu sustentar o prometido. Fabiana estava com muita dor no coração.

Ela sentia a decepção muito forte e ficou com raiva do pai e de si mesma. Perguntava-se o motivo que o fazia afastar-se da promessa com tanta facilidade. Não entendia o porquê de ele não priorizar os momentos ao lado dela. E a raiva? A raiva vinha após o sentimento de decepção. Raiva dele e raiva de si. Estava revoltada por ter dado chance ao pai. Eu via aquele olhar aflito e sedento por um desejo de ter esse pai no mais puro sentimento do coração. Ela não conseguia se perdoar por estar com muita raiva do próprio pai, aquele que ela tanto ama. Porém, ela via a admiração comprometida pela “falsa” promessa. Sentia que aquele pai tão austero, de caráter severo, de pouca flexibilidade ou nenhuma, não poderia agir assim.

Quando ela terminou de relatar a dor, um choro compulsivo e incontrolável a dominou. Permiti que chorasse. Percebi que esse choro estava preso dentro dela por muitos dias. Enquanto chorava, ela tampava o rosto com as mãos. Parecia que queria se esconder. Como se não fosse permitido a ela chorar por dor. Como se ela tivesse que engolir a decepção e o choro. Era muito dolorido tudo isso para aquela garotinha.

Fabiana é alta, teve o “estirão” cedo, e sentia que se cobrava e, talvez, era cobrada a ser forte como se tivesse mais idade. Fabiana tem uma aparência forte e alegre. No entanto, por dentro é doce e sensível. Aproximei-me. Ofereci um ombro acolhedor. Ela se ajeitou nele. Encostou a cabeça e, depois, me abraçou forte. Olhou nos meus solhos e perguntou: “Por que é tão difícil entender que as pessoas não são como a gente procura ser com elas?”. Olhei nos olhos dela, levantei os cabelos para que se refrescasse e conversamos sobre as diferenças. 

Procurei mostrar a ela que respeitar as diferenças não significa aprovar as atitudes do outro, mas procurar compreender que cada um oferece o que tem. E que, muitas vezes, encontraremos pessoas que terão dificuldade de serem empáticas. Que, naquele momento, o papai dela ainda não tinha conseguido fazer o movimento de se colocar no lugar dela. Fabiana olhava atenta. A conversa foi fluindo de uma forma que a fizesse entender que ela precisava se manter fiel aos próprios ideais de relação com o pai, porém sem criar expectativas que gerassem tanta frustração. Procurei mostrar a ela que por amor a si e ao outro, ela deveria manter-se alimentada de esperança nas mudanças que podemos gerar no outro quando mudamos também. 

“Como assim?”, ela me perguntou com interesse. Mostrei que quando alimentamos o nosso amor próprio conseguimos focar mais em nós mesmos do que no outro. Que a felicidade dela não pode estar condicionada às promessas do pai, mas no que ela mesma busca de momentos felizes. Dei um exemplo: o pai novamente descumpriu um combinado. É preciso entender que o erro não está em Fabiana, no não querer estar com ela. Está na dificuldade do pai em entender sobre compromissos, expectativas, respeito, consideração. Na dificuldade do pai em ser empático com o outro que espera por ele.  

Fui mostrando que, nos momentos que isso ocorrer, ela deve trocar a raiva por compreensão das dificuldades desse ser e buscar focar em algo que lhe gere prazer, aquisição de conhecimento, como uma leitura, um telefonema para alguém interessante, um filme, um bate-papo com quem estiver em casa ou até um hobby.  Fui mostrando que ela estava focada no pai e deixando de focar nela. Quantas coisas maravilhosas há ao nosso alcance e nos permitimos nos entristecer por um descompromisso do outro conosco. 

Fabiana, de apenas 14 anos, começou a fazer um paralelo da nossa conversa com as amizades da escola, primas, namoricos. Foi interessante vê-la ampliando o olhar a partir da dor que sentia por atitudes do pai. Terminamos a conversa. Percebi que ela estava mais forte. Ainda decepcionada com o pai, mas interessada em lidar melhor com a dor e disposta a utilizar o aprendizado nas diversas situações das relações sociais.

Fabiana agradeceu e retornou para sala de aula. Fiquei olhando ela subir as escadas. Torcia muito para o alívio da dor e revolta. Não demorou dez minutos e olha a Fabiana de volta. Dessa vez, com uma colega. “Fabíola, você pode conversar com a Jéssica? Ela precisa compreender umas coisinhas também”, disse. Eu sorri e pisquei para ela. Ali entendi que a conversa fizera bem. Agora vou cuidar da Jéssica. 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 

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