Educar faz parte!

Eu não sei amar

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Helena, 12 anos, está intrigada. Ela quer entender o que é amor. Perguntei o que ela achava que era e a menina me disse que amor é união, ajuda, respeito ao outro, vontade de estar junto. Perguntei por quem ela sentia amor. Aí o bicho pegou. Helena disse estar confusa exatamente por isso. Relatou que sempre amou seus pais, mas hoje tem os tratado com desrespeito e rejeição. E sente-se ferida por estar assim. Aproximei-me, olhei em seus olhos lacrimejantes e arrisquei perguntar por que tanta rispidez e rejeição aos pais.

A menina nem pensou duas vezes e relatou extremo cansaço pelas ordens, regras e rotina ao lado daqueles que ela ama. Helena está perdendo a admiração por eles. A garota é só mais uma das muitas adolescentes que não quer ser orientada, ensinada e até comandada. Acha que pode tudo, que já sabe tudo e não precisa mais de tantos cuidados dos pais.

“Helena, como seus pais têm reagido a sua mudança de comportamento?”, perguntei. A menina adolescente abaixou a cabeça e respondeu: “Aí que tá, tia, eles estão me amando mesmo assim e por isso dói mais”. Pedi que me explicasse melhor. Ela, com todo jeitinho, me disse que eles a tratam com respeito, são amorosos e unidos. Que ficam chateados com ela, até impõem consequências, no entanto, não desistem de ensinar o que é amor. E, após um suspiro, me disse: “Eu não sei amar. Você pode me ensinar?”.  

Eu a abracei, aconcheguei-a em meu ombro e disse: “Helena, esse é um jeito de amar. Esse gesto que estou tendo com você. Estou acolhendo as suas dores e conflitos. Você sabe amar. Se você está aqui preocupada com as suas atitudes para com seus pais, isso também é uma forma de amar. Buscar saídas para resolver conflitos também é amar. Helena, você na verdade sabe muito sobre o amor, apenas está confusa com as suas mudanças, com o seu crescimento. Para crescer, não precisa se afastar, maltratar ou impor ideias a seus pais e a ninguém”.

Naquele momento, ela olhou-me atentamente e disse: “Não gosto que me tratem como criança”. Aqui estava a questão. Repeti o gesto do olho no olho e disse a ela: “Helena, experimente dialogar. Experimente falar sobre você. Experimente amar seus pais nesse momento que você está em transição. Perceberá que tudo irá mudar. Seus pais não estão te tratando como criança. Eles estão sofridos exatamente por enxergar que você não é mais uma criança”.

Helena teve pressa. “Você pode me emprestar seu celular, tia Fabíola?”, perguntou. Ligou para mãe e disse: “Mamãe, liguei porque senti saudade. O papai está com você?”. E naquela atitude vi que Helena sabe muito o que é amor. 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 
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