Educar faz parte!

‘Mamãe, estou amando’

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Pedro, um menino tímido de seis anos, chega até a mãe e diz: ”Mamãe, acho que estou amando!” A mãe larga tudo e pede para ele repetir: “O que você disse? Você acha que é gente? Acha mesmo que é grande? Larga mão dessa conversa boba e vai caçar o que fazer”. Pedro abaixa a cabeça e sai de perto da mãe, mas leva consigo a sensação mágica de estar enamorado. A mãe, por sua vez, continua os afazeres, acreditando que o assunto está encerrado, como se o que falou fosse determinante para apagar tal sentimento. 

Pedro passa a ficar isolado, recluso no próprio mundo e sem a menor disposição para nada. Após uma semana de má alimentação e reclusão, o menino apaixonado apresenta sinais de estar adoecido. A mãe ocupada leva o filho ao médico. Uma consulta breve acompanhada com vários pedidos de exame. O retorno ao médico foi marcado e há um mês Pedro não muda o quadro. Os exames estão perfeitos. O garoto está em plena saúde física. Encucado com o estado da criança, o médico resolve dar voz a ele.

As perguntas começam sobre a alimentação, as atividades físicas, a rotina. Pedro olha nos olhos do médico e pergunta: “O senhor é doutor do coração?”. O médico explica que é pediatra. Pedro dá um leve sorriso, o primeiro após dias e diz: “Ah, por isso você não sabe o que eu tenho”. O médico se interessa pelo caso e a criança se agrada com a atenção recebida. Dessa forma, ele se confidenciou: estava no fundo com a dor do coração por amar uma colega.

Naquele momento a mãe relembra “o diálogo” e percebe que precisa rever a postura. Saem do consultório e batem em minha porta. Toda essa narrativa é exposta. Encontro-me com Pedro. Ele é tímido, mas muito afetuoso. Conversamos e ele, com lágrimas nos olhos, conta a dor que sentiu no diálogo com a mãe. Organizamos o ocorrido como uma linha do tempo e refletimos. Procurei mostrar a ele os motivos da reação da mãe.

Em outro momento, refleti com a mãe sobre o distanciamento causado com a reação tomada por ela. Embora a acolha e entendendo o susto, mostro-lhe como é importante nos preparar para ouvir e reagir com cuidado. Não concordar com namoro na idade de Pedro é perfeitamente aceitável. Entretanto, a forma de lidar com a situação precisa ser analisada. Nossos filhos precisam ser acolhidos e orientados.

Dar liberdade para falar sobre qualquer tema permitirá a aproximação e a confiança. Demandas cada vez mais precoces têm batido em nossas portas. Pedro interpretou os sentimentos de acordo com os conteúdos internos. Baseou-se em conceitos sobre o que é amar. Mostrar a ele que pode amar a colega como amiga próxima ou preferida tirou a dor que sentia. Entendeu que amá-la não significava ter gestos e ações adultas de enamorados. 

A mãe, por sua vez, também compreendeu que o filho apenas estava confuso diante dos estímulos do mundo. E que o papel dos genitores é mostrar a opinião sobre o que é melhor para a família em cada momento. 

Pedro sarou das consequências físicas. A mãe aliviou e aprendeu. Pedro continua amando a colega, amando a mãe e agora me ama também. 
 
*Fabíola Sperandio T. do Couto é graduada em Pedagogia pela UFG, especialista em Psicopedagogia e Terapia de Família e Casais. Trabalha como diretora pedagógica escolar, com uma experiência de mais de 28 anos em educação. É palestrante e terapeuta familiar e de casais. Acompanhem também o blog fabiolasperandiodocouto.blogspot.com.br.
 
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