Educar faz parte!

‘Mamãe, eu vi coisa feia na internet’

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“Mamãe, eu vi coisa feia na internet”, disse o menino de apenas 8 anos. Consegue imaginar o que ele pode ter visto? A mamãe dele também não imaginava. Passou tudo pela cabeça, menos o que realmente o que ele acessara. Felício, um garoto muito curioso, já estava acostumado a fazer pesquisas pela internet. Sabia que qualquer coisa escrita na barra do Google o direcionaria a alguma notícia ou imagem. Fazia isso com frequência.
 
Até que um dia escreveu “mulher gostosa” e foi direcionado a um monte de imagens e vídeos. Ficou assustado e fascinado ao mesmo tempo. Porém, não conseguiu guardar esse segredo. Desceu para área de convivência do prédio e convidou Paulinho para ver a descoberta. Paulinho é um garoto tímido e de poucas palavras. Gosta de correr e brincar. Tem uma família que mostra que tudo tem a sua hora e que ele precisa saber dizer não para aquilo que não fosse o momento. E ele disse não. Não deu muita moral para o convite de Felício.
 
Sem sucesso, Felício foi até Jeremias. Jeremias é muito curioso, apesar de ser discreto. Não é um garoto protagonista. Mantém-se mais distante dos líderes das brincadeiras. No entanto, naquele dia, Jeremias ficou curioso com o que Felício estava contando e quis ver as “tais” postagens. Assistiram juntos a muitos vídeos e viram muitas mulheres e homens pelados. Felício mostrava-se animado com tudo. Já Jeremias estava assustado. Fizeram um pacto de segredo. Afinal, sabiam que eram muito pequenos para esse tipo de acesso na internet. 
 
Felício ficou muito fissurado, para não dizer viciado, em entrar e assistir a tudo aquilo. Grande parte do seu dia era em um cantinho vendo e ouvindo sobre sexo. Já Jeremias se sentia culpado. Ele passou a comer mal, ficava pelos cantos, afastou-se dos pais. A culpa o consumia. “Por que aceitei ver isso?”, pensava sem parar. Um dia, sem se aguentar mais o sufoco do segredo, resolveu abrir-se com a sua mãe. “Mamãe, eu vi uma coisa feia na internet!”, falou em um único fôlego. A mãe não deu muita atenção. Começou a falar de filmes de terror, Momo etc. Ele olhava e algumas lágrimas escorriam. Se sentia pior com a falta de atenção da mãe e até a achava inocente diante do feito. 
 
Jeremias resolveu agir. Deu uma longa respirada e gritou: “Mamãe, eu vi sexo”. A mãe parou tudo e o olhou. Ficou tão transtornada que, ao invés de ouvi-lo, começou a falar sem parar. “Onde foi isso, menino? O que você está falando? Quem te mostrou isso? Não acredito, Jeremias! Quem fez isso com você? Não me decepciona”, falou. Jeremias já estava arrependido de ter contato. Chegou a pensar que Felício estava certo em manter segredo. Exausto da falação, Jeremias tentou amenizar. Disse que não era o que ela pensava. Que só tinha visto que criança nasce de sexo e que sexo é homem com mulher. A mãe, desejosa de ser mesmo algo leve, ironizou: “Ah... você já tem idade para saber que filho não vem da cegonha. Vou à escola para pedir que falem sobre isso”. 
 
No outro dia, Jeremias encontrou Felício. Contou o que tinha conversado com a mãe. Foi ridicularizado pelo colega. Virou piada na rodinha. Rodinha? Sim. Felício já tinha conseguido mostrar para quase todos os garotos do prédio, menos para Paulinho, que se mantinha firme em não ver. Ele, vendo aquele movimento todo, sentiu que deveria fazer algo. Procurou sua mãe. “Mamãe, os meninos do prédio não querem brincar mais. Só ficam vendo coisas que não são da idade na internet. Está chato descer”. 
 
A mãe de Paulinho parou tudo o que estava fazendo e pediu que ele contasse, com mais detalhes, o que estava acontecendo. Paulinho contou tudo, inclusive que se recusava a fazer parte disso. A mãe reforçou os ensinamentos e pediu autorização a ela para que isso não ficasse só entre os dois. Mostrou que precisava ajudar as crianças através de uma conversa de adultos entre as mães. Paulinho concordou. Então, a mãe de Paulinho marcou um lanche com todas as mamães de seus amiguinhos. Contou o que estava acontecendo. Ficou muito surpresa com as variadas reações: mãe negando que o filho faria isso, mãe afirmando que o filho lhe contava tudo e mãe a acusando de falar demais. Apenas uma das mães convidadas fez parceria com a mãe de Paulinho na busca de orientação aos filhos. As duas, então, procuraram ajuda.  
 
E foi aí que eu entrei na história. Conversamos longamente sobre o ocorrido. Traçamos ferramentas de ação com as crianças. 
 
1º - Parabenizei-as pela escuta. Crianças precisam ser ouvidas e acolhidas.
2º - Trabalhei com elas sobre a decepção que tiveram com as atitudes das outras mães. Mostrei que valeu a tentativa e que compreendessem que cada um ouve e age como dá conta. Dependendo de sua maturidade interior. 
3º - Falamos sobre a importância de deixar claro aos filhos que cada coisa tem o seu momento. Algumas curiosidades podem ser deixadas mais para frente, mas, se desejassem mesmo ver ou saber, que podiam confiar nos pais. 
4º - Reforçar as atitudes positivas e de parceria entre pais e filhos. Como exemplo, a fidelidade de Paulinho às regras, aos valores e princípios familiares. 
5º - Realizar dinâmicas com os filhos para que pudessem colocar para fora o que viram e o que sentiram. No caso do Paulinho, sobre a represália que teve por não aderir. No caso da criança que viu as cenas de sexo, quais eram as dúvidas, medos e curiosidades. 
6º - Colocar os papais na jogada. Antes, porém, realizar combinados do casal sobre até onde ir e como falar. 
7º - Mostrar que convites surgirão ao longo da vida. Convites para coisas que fogem do que acreditam como família: drogas, bebidas, comportamento impróprio em locais públicos etc. É preciso utilizar o ocorrido como oportunidade de aprendizado. 
8º - Por último, fica o aprendizado de que cada família é de um jeito, o importante é ser fiel a sua família, respeitar as diferenças e ensinar o filho a conviver com os diferentes, não sofrendo porque não aceitou algo proposto. 
 
Criamos nossos filhos para enfrentar o mundo. Nesse enfrentamento, é essencial ajudá-los emocionalmente. Nada de exageros ou desesperos. Encare tudo como oportunidades e coloque mais leveza na forma de educar. Seja firme e doce. Acolha e ensine. Desejo sucesso sempre às famílias. 
 
*Fabíola Sperandio Teixeira do Couto trabalha desde 1984 em instituições de ensino e desde 1999 em consultório. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em Organização e Gestão de Centros Educacionais, especialista em Ensino Superior,  terapeuta de Família e Casais e mestre em Educação. Publica periodicamente no Blog Educar Faz Parte LUDOVICA - Organização Jaime Câmara e na Editora Geração Digital. Membro atuante no IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família e associada na ATFAGO - Associação de Terapia Familiar de Goiás.
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