Educar faz parte!

Meu filho mente

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Recebo muitas famílias intrigadas e incomodadas com a mentira dos filhos. Muitas vezes, sentem-se esgotadas nos recursos de correção, emocional e fisicamente sem energia. A mentira parece que fica impregnada naquele ser. Soa como vício. Vira e mexe, lá vem ele com mais uma mentira. A mentira tem como objetivo faltar com a verdade. Claro! Há intenção de trapacear, enganar, ludibriar. Porém, assim como a verdade tem várias formas de ser dita, a mentira também se mostra de variados aspectos.

A mentira pode vir carregada de omissão, dissimulação, distorção, exageros ou diminuição de fatos, fantasias, impulsividades. “Tudo junto e misturado”, com um único objetivo: faltar com a verdade. A mentira não está só nos nossos filhos ou em crianças. Infelizmente, a mentira está no comportamento dos adultos, nas publicidades, na TV, na internet, em todo lugar. 

O primeiro passo para combatê-la é encará-la. Olhar para essa criança e não achar desculpas pelos atos. Entender que, muitas vezes, ela até não está mentindo, mas o fato de faltar com parte da verdade já deve ser motivo de preocupação. Isso deve ser trabalhado. Algumas crianças lançam mão “desse recurso” para se beneficiarem. Muitos adultos fazem vistas grossas e não percebem que assim acabam instalando o comportamento. Um bom exemplo é o que, muitas vezes, ocorre na escola. Eles contam a parte que acreditam que vai beneficiar a si mesmos. Escondendo ou modificando a verdade sobre algo que possa desagradar os pais ou aumentando a história para se vitimarem em relação à professora ou colegas.

Outro aspecto é o fato de eles selecionarem o que contam, acreditando que algumas coisas podem ser deixadas quietas: transgressões, por exemplo. Precisamos achar o equilíbrio na busca da verdade. Não podemos agir como se eles sempre fossem mentirosos ou omissos e, muito menos, demonstrar que acreditamos em tudo o que trazem. Difícil? Um exercício necessário para o desenvolvimento dos nossos pequenos. Outro cuidado necessário é desenvolver a necessidade da confiança e mostrar que ambos se beneficiarão em cuidar para que a verdade seja soberana. 

Quando trabalho esse tema com as crianças e adolescentes, sempre procuro mostrar que a verdade é sempre o melhor caminho. Se fez algo errado você tem um problema. Se fez algo errado e escondeu ou mentiu, passa a ter mais de um problema. Vou trabalhando para conscientizá-los que a verdade é libertadora. Outro recurso que utilizo é mostrar “as encrencas” em que eles se metem quando lançam mão das mentiras. Que a mentira pode, momentaneamente, tirá-los do apuro, mas como ela tem “perna curta”, em breve, os colocará em maus lençóis de novo. 

Percebo que as crianças e adolescentes só começam a modificar o hábito horroroso de se safar das situações por meio da danada da mentira quando as consequências dos atos ficam evidentes. Como utilizam a mentira em benefício próprio, ao perceberem que o benefício não aconteceu e ainda trouxe privações, começam a repensar tal atitude. Crianças e adolescentes mentem muito para fugir das responsabilidades: hoje não tem tarefa porque o professor não foi; a sala estava indisciplinada e o professor não deu aula; vou dormir na casa da Maria (colega adorada pela mãe), mas, na verdade, dormirá na casa da Joana (colega que a mãe jamais deixaria); “todo mundo irá à festa”, como tentativa de seduzir para o sim; diz que lanchou, porém está sem comer há semanas, guardando o dinheiro para comprar algo que os pais não apoiariam etc. A mentira se torna atraente porque tem o poder de mudar a realidade, gerando benefícios a quem se propõem a enganar. 

Muito se estuda sobre esses mitômanos. Não conhecia esse termo? Vamos lá! Mitômanos são mentirosos compulsivos. Eles mentem com tanta convicção que são capazes de crer na própria mentira. Fazem da mentira a principal qualidade. Adquirem dependência da mentira e passam a ter necessidade de mentir. Triste, né? Essas pessoas, por sua vez, criam mundos paralelos. Muitos se tornam tão adoecidos que precisam de tratamento para essa psicose. 

E como lidar com esse filho mentiroso? 

1- Observe se ele tem exemplo. Tem alguma ação familiar que pode demonstrar a ele que é vantajoso faltar com a verdade?

Exemplo A: Filho, fala para sua amiga que vamos viajar, porque não quero que ela venha para casa. Vamos ficar aqui só nós quatro. 
Exemplo B: Querido, diga para a sua chefe que eu estou doente e vamos naquele passeio. 
Exemplo C – Filha, fale para o seu pai que a escola que mandou ir para casa da colega fazer trabalho, porque se você falar que quer ir passear ele não deixará. 

2- Como anda o amor próprio do seu filho? Crianças com baixa autoestima podem lançar mão de mentiras. Trabalhe a segurança. Ensine-o a dizer não e a assumir as atitudes sem medo. Ensine-o a se amar, ressaltando as qualidades e corrigindo o que precisa corrigir. Mostre que evoluir faz bem. 

3- Não reforce a atitude de mentir, sempre o acusando de mentiroso. Não aponte dedos. Acolha, corrija e mostre as consequências da atitude de mentir. Reflita com ele. Mostre que o quer bem. E que mentira não traz bons momentos. 

4- Não supervalorize esse mau hábito. Trate-o. Acredite que seu filho crescerá com os ensinamentos. Não o rotule ou o condene como se ele fosse ser assim para o resto da vida.

5- Não fique comparando-o com ninguém. Ele é único. Comparar só irá fazer mal e não resolverá o problema. 

6 – Ame-o. Amar significa acolher e ensinar. Amar significa não fingir que algo está acontecendo ou que é fase e passará. Amar significa encarar tudo ao lado dele e ajudá-lo a superar.

*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 
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