Educar faz parte!

Meu filho tem dez anos e quer experimentar álcool. O que faço?

Shutterstock

“Meu filho tem dez anos e tem insistido que quer experimentar bebida alcoólica. O que eu faço?” Pode imaginar receber uma mãe com essa angústia? Um pedido de socorro naquilo que deveria ser bem óbvio? Mas por que ficamos inseguros com esse tipo de abordagem de nossas crianças? Nós nos surpreendemos com a precocidade de nossos pequenos. Enquanto achamos que vamos ouvir um pedido de um carrinho para a sua coleção, como desejo de consumo, vem uma bomba dessa: o desejo de beber como adultos.

E o que tem levado jovens à busca de consumo de álcool? Quando converso com eles, percebo “de cara” o desejo da popularidade a qualquer custo. Acreditam que, para serem felizes, precisam ousar, arriscar e aparecer. Como já fazem parte da geração do consumo a qualquer custo, não é difícil transferir o desejo de posse para a droga lícita. Outro aspecto é a “mistureba” do mundo adulto com o mundo infantil. As crianças de hoje, em sua maioria, frequentam todos os lugares do mundo adulto e esquecem que ainda são infantis. Apoderam-se do direito de também fazer. Presenciam tanto grupos de adultos em uma aparente felicidade em meio às festividades regadas ao consumo de bebidas que desejam fazer parte e, o pior, exibir esse acesso aos demais colegas como forma de se impor e mostrar que “cresceram”.

Outro incentivo são as mídias sociais que vendem a imagem da bebida associada com a beleza e a alegria. Estendo o acesso das redes sociais as presenciais. Hoje é cada vez mais comum ouvirmos nos corredores das escolas relatos de consumo de bebidas em festas familiares e de colegas. Consumo autorizado pela família ou às escondidas. Alguns jovens adolescentes encontram no “recurso” da bebida desculpas para enfrentar a timidez ou degrau para acessar alguma panelinha de colegas. Inicialmente a bebida gera mesmo uma desinibição e euforia, até porque é uma ousadia que traz adrenalina. Com essa desculpa do álcool sentem-se desinibidos e desculpados por mostrarem um lado que sóbrios não arriscariam: chegar a uma pretendente, falar bobagens (indecentes), zoar com os amigos, arriscar-se nas aventuras.

E o que acaba ajudando para que isso aconteça (idade prematura das crianças ao consumo do álcool)? O fato de sermos muito tolerantes com o consumo de álcool em nossos lares, incluindo os menores da família. Chegamos a assistir a cenas de pais oferecendo a bebida para as crianças experimentarem. Outros que ainda dizem: “Vai aprender comigo e beber comigo”. Só que o aprendizado não se resumirá as asas dos pais. A partir dessa anuência familiar, o jovem sente-se autorizado a consumir em qualquer lugar: “Meu pai sabe”.

A partir do experimentar, que já gera um prazer enorme de pertencimento ao outro ciclo, o do adulto, em seguida vem outro grande prazer entre eles, que são as narrativas de suas experiências reais e fantasiosas com o uso da bebida: ”Cara, dei PT (perda total dos sentidos)”!; “Peguei a fulana!”; “Mó doideira no condomínio!”; “O rolê mais louco no carro do pai do fulano”. Tudo isso são exibições comuns para mostrar poder, diferencial e, consequentemente, popularidade. Popularidade negativa aos nossos olhos de adultos e popularidade sonhada aos desavisados jovens que não percebem as consequências disso. 

E os pais? Pais, vocês podem sim proibir o acesso dessas crianças, que se acham grandes, ao consumo de bebida alcoólica. Não temam colocar um freio. Freiem agora! Não só pela lei que é clara, mas pelo que a bebida pode gerar na vida de seu filho e na sua vida. Afinal, o que acontece com um, afeta todos os membros familiares. Uma boa conversa com seu filho mostrando as regras familiares, demarcando a idade em que ele poderá ter acesso à bebida, mostrando consequências do uso prematuro em seu corpo, que está em formação, e no meio social, trará bons resultados. Uma conversa recheada de escuta para que você possa compreender porque o acesso ao mundo da bebida tem chamado a atenção de seu filho. Aproveite para conhecê-lo. 

Hoje, meninas e meninos estão cada vez mais consumindo álcool precocemente.  Chegam a levar bebidas alcoólicas escondidas para festinhas dentro de casa ou da casa de familiares de colegas. Os shoppings têm enfrentado problemas com essas crianças, que estão se achando grandes e levando bebidas ou tentando comprá-las na praça de alimentação. Já ouvi relato de consumo até em sessão de cinema. Tudo pela ousadia de se mostrarem “grandes”, populares e donos de si. Mas não passam de crianças influenciadas por um consumo excessivo transferido para essa droga autorizada por nossa sociedade. 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é graduada em Pedagogia pela UFG, especialista em Psicopedagogia e Terapia de Família e Casais. Trabalha como diretora pedagógica escolar, com uma experiência de mais de 28 anos em educação. É palestrante e terapeuta familiar e de casais. Acompanhem também o blog fabiolasperandiodocouto.blogspot.com.br.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA