Educar faz parte!

Minha filha não se parece comigo

Shutterstock

Laura foi muito esperada. Sua mãe, Maria, a desejava e já a imaginava com laços e fitas. Maria preparou o quarto com muito cuidado. Decorou e organizou um guarda-roupa recheado de vestidos, acessórios e calçados, contemplando do primeiro mês aos dois anos de idade. Era uma realização. Um sonho a se concretizar com o nascimento da pequena.
 
Laura foi crescendo, mas desde bebê rejeitava os laçarotes e arrancava os brincos. Maria insistia, porém sem muito sucesso. Aos dois aninhos, Laura já conseguia retirar os vestidos e jogá-los longe. Laços? Viravam brinquedos. Brincos? Tirava da orelha e virava carga nos carrinhos do irmão. Sim! Laura tinha um irmão. Pedro, de cinco anos. Um garoto muito carinhoso e falante. Pedro hipnotizava Laura com divertidas histórias e brincadeiras. Eles se davam bem. 
 
Só quem não estava bem era Maria. Maria estava frustrada porque Laura não correspondia aos desejos dela. Maria tratava Laura como uma boneca. Não entendia a personalidade da linda menininha. Laura era doce e muito feminina, no entanto, era prática e se sentia agoniada com o estilo de roupa e acessórios que a mãe lhe colocava. Ela queria algo simples e que proporcionasse agilidade para as brincadeiras. Laura também era encalorada. Tudo lhe dava coceira e irritação. E Maria só na decepção. 
 
Recebi Maria em minha sala. Uma queixa sem fim. Não conseguia aproveitar a filha do jeito que ela é. Queria impor seus desejos a qualquer custo. Acolhi. Ouvi. Compreendi. Aquela mãe estava sofrendo. Eu precisava trazê-la para mim e, depois, fazê-la entender o que estava acontecendo. Maria, muito vaidosa, queria uma Mariazinha. Uma miniatura dela. Até brinquei com ela: “Você quer uma réplica, Maria? Você é única. Laura também. Você é bela assim como é. Laura também é linda à maneira dela”. 
 
Fui mostrando que a roupa, os laçarotes ou a ausência deles não iam deixá-la mais menina ou menos menina. Mais doce ou menos doce. Que não importava a vestimenta, mas o bem-estar da filha com o que vestia. Maria chorava. Falava com os olhos vermelhos: “E os meus sonhos?”. Eu perguntei qual era o sonho dela. Ela me fitou com o olhar marejado e respondeu: “Ter uma menina!”. 
 
“Então, você é realizada, Maria”, respondi prontamente. Naquele momento, ela deu um salto da cadeira. Eu até me assustei. Não imaginava o que viria. Maria andou pela minha sala em silêncio. Eu também fiquei em silêncio. Permiti que ficasse consigo mesma. Depois, sentou-se. Passou a mão pelos lindos cabelos longos e disse: “Fabíola, você está querendo me dizer que tenho que aceitar essa filha sem vaidade e pronto?”.
 
Ela estava muito brava comigo. Eu projetei meu corpo mais para perto dela. Estendi a minha mão até o seu braço e disse: “Maria, você acha a sua filha sem vaidade ou ela não tem as mesmas escolhas que você?”. Imagine o silêncio. Um minuto parecia uma hora, até que ela pegou em minha mão e falou: “Ela não gosta do que eu gosto, mas deveria”. Rebati: “Deveria por quê? Porque você quer? Porque você manda? Porque é seu sonho?”.
 
Maria parecia que tinha andando uns 50 KM do tanto que estava vermelha e suada. Era a emoção aflorada no físico. Era importante fazê-la pensar. Não conseguiria ter uma relação próxima à filha se continuasse a rejeitando pela personalidade apresentada, inicialmente, com a questão do vestuário. Conversamos mais um pouco. Maria precisava amadurecer acerca das reflexões que geramos. Pedi para que fosse tranquila para casa. Que só procurasse focar não na Laura, mas sim nela mesma. Tinha que procurar encontrar o motivo de estar tão incomodada com isso. Na próxima sessão, continuaremos.
 
Vou conseguir ver se houve ou não avanços. Muitas vezes, projetamos sonhos para os nossos filhos antes mesmo de nascerem. Esses sonhos são nossos e não deles. Precisamos entender isso. Na próxima semana, trago mais sobre essa história. Por enquanto, vamos pensar nas nossas histórias com os nossos, baseadas na linda história de Maria. 
 
*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 
Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores. 
Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA