Educar faz parte!

Minha filha não se parece comigo - parte 2

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Lembra-se de Maria? Pois é, eu estava ansiosa para a ver. Queria saber como havia sido a semana após o nosso último encontro. Será que utilizara as ferramentas? Refletira sobre o que conversamos? O que será que aconteceu com a aflita mulher? Maria chegou pontualmente. Estendeu a sua mão e me olhou com um olhar curioso. Parecia estar com raiva de mim. Fui gentil e sorridente. Pedi-lhe para que se sentasse. Resolvi ficar em silêncio e não iniciar o diálogo como da outra vez. 

Maria parecia ter feito a mesma opção. Aquele silêncio já me incomodava. Até que ela o quebrou. “Sabe, Fabíola, preciso confessar que senti raiva de você”, disse. Eu sorri e enviei ondas de amor com meu olhar. Queria que ela entendesse que eu compreendia o seu sentimento. “Continue, Maria”, incentivei. Então, ela disparou a falar. Repetiu sobre seus sonhos e suas expectativas com o nascimento de Laura. Falou da vontade de vê-la vestida com o que escolhia. Que a tratava sim como uma boneca. Porém, relatou que a conversa havia ficado como um eco em sua cabeça. Percebeu que estava errando muito, plantando expectativas e, consequentemente, colhendo frustrações.

Perguntei se o que me dizia era algo que vinha de dentro para fora (elaborado/amadurecido) ou ela estava só racionalizando. Maria respirou e disse que era amadurecido sim. Que pensara muito e percebera que o que estava fazendo com a filha também fazia com outras pessoas. Pedi para que me contasse mais sobre essa “sacada”. Maria foi trazendo exemplos de ações que ela tinha com a mãe, o esposo e com os colegas de trabalho. À medida que falava, ela se percebia. Juntas, refletíamos sobre a importância dessa percepção e como poderíamos trabalhar para que se sentisse melhor, resultando em mais qualidade nas relações. 

“Fabíola, perdi algumas pessoas importantes por esse meu jeito. Por favor, ajude-me”, falou Maria enquanto chorava. Vi que estava sendo difícil para ela se deparar com esse lado que fora escancarado. Sentei mais próxima, coloquei a mão no joelho dela e disse-lhe: “Maria, todos nós temos situações que nos incomodam ou atrapalham as relações. O melhor você já fez. Você percebeu e reconheceu. A tomada de consciência, embora dolorida, é o primeiro passo para a mudança. Eu estou aqui para ajudá-la nesse processo. Estamos juntas”.

Para quebrar o clima, pedi que me contasse as últimas da Laura. Maria abriu um largo sorriso e me contou inúmeras tiradas da filha. Ao contar, percebia uma Maria mais leve, menos sofrida com as diferenças. Maria já conseguia achar graça. A cara fechada e raivosa de antes dava lugar ao sorriso. Laura deixou de ser “a rebelde” para ser a divertida menina de personalidade, como referiu a mãe. Maria teve que ir. Eu estava feliz pelo avanço. Feliz pela Maria que sofria e agora encarava uma nova oportunidade de se relacionar. No entanto, muito mais feliz pela Laura que poderia construir com a mãe uma relação muito mais respeitosa e harmoniosa.

Muitas vezes uma situação que nos parece difícil e conflituosa pode revelar um lado nosso que não conseguimos encarar. Temos a tendência de culpabilizar o outro. Se pararmos para nos olhar diante da cena, teremos muito mais chances de evoluir e ter mais momentos felizes. Vale tentar. Topa? 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 
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