Educar faz parte!

Minha vovó foi para o céu

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Com os olhos molhados de lágrimas, Davi, um garoto muito apegado à avó, veio em minha direção e me abraçou: “Como ficarei sem meu porto seguro, tia?”. Restou, naquela hora, eu abraçá-lo e mostrar que entendia a dor. Será que temos noção do amor entre avós e netos? Cá para nós, nem todos avós e netos se dão bem, nem toda vovó ama o neto e vice-versa, mas vamos focar nesse amor que Davi demonstrou.

Perder quem amamos dói muito. A dor é quase insuportável, mas ela passa e dá lugar para as doces lembranças. A dor saí e vem o cheiro do café que a vovó coava logo pela manhã, a fragrância do creme hidratante que ela usava, vem as lembranças dos cuidados: “Tem que comer, menino! Você está em fase de crescimento”. As relações hoje estão menos próximas em razão da rotina que estamos estabelecendo para nós mesmos e para os nossos filhos, porém gostaria de pegar esse exemplo para pensarmos na importância dos avós na vida das nossas crianças.

Muitas vezes, os adultos misturam a relação conflituosa com os avós dos filhos e impedem que eles tenham uma aproximação. Um grave erro! Devemos resolver as situações no campo dos adultos sem envolver as crianças. Toda criança tem o direito de ter os avós por perto, salvo exceções quando a companhia dos avós não é saudável para a criança.  Aí é outra história. No entanto, Davi tinha uma relação benfazeja com a vovó. Ele a via diariamente. Ela tinha muita influência na formação do menino e ele terá muitas doces lembranças quando essa dor for embora. Bem diferente da situação da qual falo no meu artigo ”Não quero encontrar a vovó, mamãe”, Davi estava lidando com o luto de uma pessoa que se fez muito presente.

Doutor Alan Wolfelt, educador e estudioso das questões do luto, diz que as crianças têm seis necessidades no processo de luto:

1ª necessidade: reconhecer a realidade da morte

A criança ou adolescente precisa deparar com a realidade de que alguém que ela amava muito morreu e que essa pessoa não mais estará presente fisicamente. Elas lidam com a aceitação da realidade da morte em “doses”. Permitem a entrada de um pouco de dor e depois voltam a brincar. Experimentam as lágrimas e depois voltam para o celular. Essa dosagem não só é normal, mas também necessária para tornar esses primeiros momentos do luto mais suportáveis. A criança ou adolescente pode levar muito tempo para digerir plenamente a realidade da perda. Conforme ela se desenvolve e amadurece, a morte assume novos significados e de maior profundidade.

2ª necessidade: sentir a dor da perda

Quando estamos em processo de luto, adultos ou crianças, precisamos nos permitir sentir a dor da perda. Felizmente, a maioria das crianças ainda não aprendeu a esconder ou negar os sentimentos. Se estão tristes, elas geralmente se permitem estarem tristes. Você pode ajudar, encorajando a criança a falar sobre pensamentos dolorosos e ouvir o que querem contar sem julgamento. Incentive que falem de sentimentos. Você também pode servir como exemplo, demonstrando os próprios. Se estiver triste, expresse sua tristeza na presença da criança.

3ª necessidade: relembre a pessoa que partiu

Quando alguém próximo e que amamos morre, ela vive em nós por meio das nossas lembranças. Crianças e adolescentes em luto precisam relembrar a pessoa que partiu e precisam ajudar a celebrar a vida que essa pessoa viveu. Reforçar a memória das vivências saudáveis ajudará muito. Não tente tirar as lembranças da pessoa que morreu como uma tentativa equivocada de privá-la da dor. É muito bom para a criança ver fotos ou assistir a vídeos. É bom para ela contar histórias sobre essa pessoa querida que se foi, assim como ouvir outras pessoas contarem histórias também. Relembrar o passado torna o futuro mais possível.

4ª necessidade: desenvolver identidade própria

Sabemos que parte da identidade de uma criança é formada pelo relacionamento que ela teve com a pessoa que partiu. Todo mundo do grupo das nossas relações colabora com a nossa formação. Talvez ela tenha tido um pai e agora não tenha mais ou ela poderia ser o irmão mais velho, que agora não tem mais a irmã caçula. Como mudou o sentido da criança sobre quem ela é como resultado de uma perda importante? Ninguém pode preencher para a criança a “vaga” da pessoa que partiu. Não tente achar um pai melhor, amigo ou avô substituto. Algumas vezes, as crianças são encorajadas a assumirem o papel e as tarefas que pertenciam à pessoa que morreu (exemplo: o pai morreu e a mãe fala para o filho que ele agora é “o homem da casa”), o que impede o processo de superação e injustamente rouba a inocência da infância.

5ª necessidade: procure significado

Quando alguém que amamos morre é natural questionarmos o significado e o propósito da vida. As crianças tendem a fazer o mesmo de forma muito simplificada, por meio de perguntas como: “Por que as pessoas morrem?”, “Por que o papai do céu levou a minha vovó?”, “Onde ela ficará agora?”, “O que acontece com as pessoas depois que morrem?”. Uma criança só se sente à vontade para fazer esse tipo de pergunta para um adulto em quem confia. Não tente responder a todas as perguntas sobre o significado da vida. Não tem problema, e talvez até seja desejável, admitir que você também se sente confuso com as mesmas perguntas.

6ª necessidade: receber apoio contínuo dos cuidadores

O luto é doloroso mesmo. O luto é um processo, não um evento. O luto leva tempo. A criança enlutada precisa da compreensão, compaixão e da presença de um adulto próximo, não somente nos dias ou semanas após a morte de alguém querido, mas também nos meses e anos a seguir. Conforme vão crescendo e amadurecendo, as crianças vão naturalmente processar o luto em novos e mais profundos níveis. Uma criança que passa por um processo de luto rodeada de suporte e apoio tende a ser um adulto mais saudável.

*Dr. Alan D. Wolfelt, P.H.D., é autor de centenas de livros sobre perda e luto. Conhecido mundialmente pelos conselhos e mensagens de apoio e superação da perda, é membro da Association of Death Education, premiado pelo Counseling`s Death Educator, e atua como diretor do Center for Loss and Life Transition em Fort Collins, Colorado, nos Estados Unidos.

*Fabíola Sperandio T. do Couto é pedagoga, psicopedagoga e terapeuta de família e casais. Ela é membro do IBDFAM Goiás, mestranda em Educação e concluindo a especialização em Organização e Gestão de Centros educacionais. Atua em educação desde 1984 e em consultório desde 1999. É diretora pedagógica de instituição privada do Infantil l ao 9ºano, palestrante e consultora na área educacional e familiar. Publica periodicamente no blog "Educar Faz Parte" (Organização Jaime Câmara/Globo/Ludovica) e na Editora GD.
 
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