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Socorro: minhas filhas regrediram com a chegada da bebê

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É alta madruga e uma mãe linda por fora e por dentro me manda um grito de socorro. Imagino a sua dor e me disponho a ouvi-la e ajudá-la. Pelo seu relato, é perceptível o desejo de ser uma mãe exemplar, mas humana. Um relato de muita dor e muita honestidade. Ela não se preocupa em colocar a sua fragilidade e até o seu sentimento de culpa, porém, de uma beleza, na busca de acertar, o que me emociona. 

“Oi, Fabíola, desculpe o horário... É que estou há horas em busca de algum artigo que fale sobre comportamento dos pais em relação ao comportamento do filho mais velho, por causa da chegada do bebê na família e não encontrei nada. Muito se fala sobre comportamento da criança, mas nada dos pais. Então, essa é a minha sugestão para sua coluna. Acho que vou enlouquecer com a regressão e a mudança de comportamento das minhas gêmeas primogênitas com a chegada da minha bebê. Todos recomendam psicólogo para criança, mas acho que eu é quem estou precisando. As meninas voltaram a fazer cocô na roupa, choram o tempo todo, estão agressivas, todo aquele comportamento natural de uma criança que se sente insegura com a chegada da outra, mas eu que deveria saber lidar com isso”, contou mostrando desespero. 

“Me apresento extremamente nervosa com a situação, não consigo conter os gritos e as broncas, coisa que não fazia antes. Na sequência, percebo que agi errado e tenho que lidar com frustração. Me sinto a pior mãe do mundo. Não sei o que fazer: se volto e peço desculpa, se tento me explicar... Mas será que vão entender? Elas só têm três anos. Aí quero chorar e coração fica esmagado. Até a respiração fica difícil, porque parece ter um bolo preso na garganta. Então, decido voltar atrás. Abraço, tento me desculpar e explico que a culpa é do estresse. Sei que não entenderam e tento recompensar com carinho, mas o meu comportamento intolerante e agressivo já deixou mágoas nas pequenas. Elas me tratam com indiferença e meu coração despedaça. Tenho medo de perder o amor delas. E para eu me sentir ainda pior, elas dizem que têm medo de mim. Meu Deus! Os pais também precisam de socorro. Tem algum manual? O que passa comigo é natural? Outros pais vivem isso? Como lidar? Quais as consequências disso? Especialmente, na criança...”, questiona a mãe. 

Quanta dor por se sentir confusa em como lidar com a situação. Realmente, ser mãe de gêmeas, ter a chegada de outra integrante bebê e ainda ser dona de casa, esposa e profissional, não é nada fácil. Será que, realmente, é pensado na mãe e oferecido o suporte necessário para que ela não viva essa dor? As pessoas próximas estão dispostas a oferecer ajuda para que essa mãe cuide de si e tenha tempo para as primogênitas?

Manual não há, até porque cada caso é único e merece uma especificidade. No entanto, é possível tentar reorganizar toda essa sensação de fracasso e dor. Veja os passos:

1. Entenda que você tem as suas limitações. Não tente ser a “Mulher Maravilha”, porque ela só existe nos filmes.

2. Peça ajuda. Não se acanhe ao pedir. Não queira abraçar tudo e achar que esse papel é só da mãe. Todos podem ajudar. 

3. Tire um tempo para cuidar de você. Afinal, você precisa de um tempo para se reorganizar, se cuidar física e emocionalmente. Como oferecer algo ao outro se você não tem se oferecido? Para isso, delegue aos outros os cuidados das pequenas. Que seja uma horinha só. Já ajuda. 

4. Tire, entre a sua rotina diária, um tempo para brincar com as primogênitas. Sente no chão e divirta-se com elas. Permita a integração e aproximação. Isso as acalmará e fará com que requisitem menos você quando estiver cuidando da bebê.
 
5. Coloque mais o pai na jogada. Porém, em um revezamento no qual ele cuide da bebê enquanto você brinca com as gêmeas e depois inverte.
 
6. Coloque os avós na “brincadeira”. Deixe a bebê por uma horinha aos cuidados dos avós e papai e mamãe irão ficar exclusivos com as primogênitas. 

7. Crie momentos nos quais os cinco fiquem juntos. Proponha que as gêmeas brinquem de papai e mamãe e os papais virem as gêmeas. Vejam como elas agirão lidando com a bebê e “as gêmeas”. E papai e mamãe imitarão o comportamento delas. Será um rico aprendizado.

8. Uma vez por semana, deixem as três com alguém e saiam para curtir o casal. Nutri esse amor é essencial para terem força para enfrentar a rotina. 

É uma adaptação. É tudo muito novo para todos os integrantes da família. Não é só você, mãe, que está sofrendo. Todos estão se reorganizando ou, pelo menos, tentando. Não se culpe nunca.  Lembre-se de que fazemos aquilo que é possível, porém o melhor é não se conformar com a situação e buscar ajuda. Não se julgue como mãe.

A exaustão emocional acaba nos assustando quando nos percebemos fazendo coisas que jamais imaginaríamos. A sua tomada de consciência diante do que vem acontecendo já é um enorme passo para a mudança. Fique firme e logo isso mudará. Receba o meu carinho, a minha admiração e a minha solidariedade. Grite-me quando precisar. Estou com você. 

*Fabíola Sperandio Teixeira do Couto trabalha desde 1984 em instituições de ensino e desde 1999 em consultório. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em Organização e Gestão de Centros Educacionais, especialista em Ensino Superior,  terapeuta de Família e Casais e mestre em Educação. Publica periodicamente no Blog Educar Faz Parte LUDOVICA - Organização Jaime Câmara e na Editora Geração Digital. Membro atuante no IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família e associada na ATFAGO - Associação de Terapia Familiar de Goiás.
 
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