Educar faz parte!

Vi meu papai judiando da mamãe e chorei

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Cíntia (nome fictício) chega correndo e com os olhos cheios de lágrimas diz: “Fabíola, eu vi meu papai judiando da minha mamãe. Eu chorei”. Eu abracei a menina com muito carinho, me abaixei e, olhando nos olhinhos, disse: “Imagino a sua dor, mas você pode me contar mais de como está se sentindo e o que aconteceu?”. Cintia me correspondeu com o olhar e começou a narrar. Contou-me que está detestando este mundo tão materialista e acredita que o dinheiro muda os ânimos das pessoas. Falou muito que o papai dela é um homem bom, mas que, quando apurado por questões financeiras, se transforma em uma pessoa impaciente e agressiva.

Cintia chorou muito. Ofereci-lhe água e ela continuou. Tão pequena e já tão cheia de desesperança. Falou-me que a mãe é uma pessoa doce e muito trabalhadora. Ela enxerga que houve uma injustiça por parte do pai. De repente, a menina solta uma pergunta: “Fabíola, você acha que quem ama pode gritar, xingar e até bater? Papai disse que ama a mamãe e eu acredito, mas quando ele fica bravo, ele fica diferente. Por que ele fica bravo? Por quê?”.

Continuo dedicada a ouvi-la. Ela precisava falar. O peito estava cheio de dor e dúvida. As lágrimas mostravam que estava inconformada com o que presenciou. Cintia contava detalhes de uma noite sofrida e assustadora. “Fabíola, eu amo meu pai. Eu amo a minha mãe. E agora?” Percebi que era isso o que ela queria dizer. Entendi o que estava sentindo. Arrisquei-me a explicar. Falei para ela que poderia continuar amando os dois. Que o amor pelo papai não precisava mudar, porém ela não precisava aprovar a atitude dele. 

Confusa, ele me perguntou como era isso. Expliquei: “Cintia, quando você faz algo errado, o papai e a mamãe continuam amando você, mas desaprovam o que você fez. Por exemplo, você desobedece a eles e eles te corrigem. Pediram para você estudar e não ligar a televisão. Você não estudou e passou a tarde vendo TV. Eles chegaram e lhe deram um castigo. Nesse momento, eles estão bravos com a sua atitude, certo? Mas continuam te amando. Você está muito triste com a atitude do seu pai, mas não perdeu o amor por ele. Está magoada e decepcionada“.

“Fabíola, é isso que sinto. E o que eu faço com isso?” Vixe! Cintia estava mesmo me apertando. Como explicar algo tão doloroso e que também não aceito (agressão) a essa criança de nove anos? Continuei tentando ajudá-la. Entre um gole de água e outro, fui fazendo-a falar da cena a que assistiu e da própria dor. Ela ia se esvaziando da dor e do susto e o esvaziamento ia dando lugar a novos sentimentos. Peguei um papel branco e lhe pedi para escrever tudo o que aparecia em sua mente. Cintia escrevia com muita força. A ponta do lápis quebrou por duas vezes.

Eu a motivava. Ela escrevia. Depois, lhe pedia para ler as palavras. Ela começou a ler em voz alta e depois silenciou. Lágrimas corriam. Peguei outro papel. Pedi para que escrevesse coisas alegres que já havia sentido ao lado dos pais. Ela ficou com o lápis na mão. Paralisou. Entendi. Fiquei em silencio. Dei o tempo que ela precisava. Até que começou a escrever. Escrevia e o rosto ia suavizando. Quando terminou, pedi para escolher um dos dois papéis. Ela escolheu o das situações alegres. 

Perguntei a ela o que poderíamos fazer com o outro papel. Ela olhou, olhou, o amassou com tanta força. Eu peguei uma folha também e amacei com força, rasguei, joguei para cima, fiz uma bola e arremessei com força na lixeira. Ela ia me imitando e sorrindo. De repente, estávamos gargalhando das duas “maluquinhas da folha de papel”. Nós nos acalmamos. Sentamos uma na frente da outra. Olho no olho: “Cintia, eu entendo a sua dor. Dói muito ver quem amamos com atitudes como a que assistiu. Não devemos nos conformar e muito menos aceitar humilhações, agressões, assédio moral. Entenda que essa cena precisa servir de aprendizado para que você nunca faça algo assim e nunca permita que alguém faça com você. Sei que, por mais que você tenha vontade de dizer algumas coisas para o papai, por respeito ou medo, você recua. Não se culpe por se recuar. Temos nossas limitações. Não é covardia você não o enfrentar. Você é uma criança e eles são dois adultos que precisam se entender e se respeitar”. 

“Mas, Fabíola, você pode conversar com meus pais? Você pode ajudá-los. Por favor?“ Cintia quer ajuda e deseja ajudar. Respondi que vou marcar um horário com os pais. Que vou sim conversar com eles e mostrar a dor que provocaram na filha. E, se aceitarem, ajudá-los a entender a importância de uma harmonia conjugal e familiar. Tudo pode ser dito e resolvido com ternura e amor. Atos agressivos só minam as relações. Crianças estão expostas a situações cotidianas que causam muita dor. Temos tomar muito cuidado com o exemplo que oferecemos.

Na próxima semana, conto como foi o encontro com os pais. Desejo muito que Cintia entenda toda essa situação de uma forma que não lhe gere consequências e sim aprendizados.

*Fabíola Sperandio T. do Couto é graduada em Pedagogia pela UFG, especialista em Psicopedagogia e Terapia de Família e Casais. Trabalha como diretora pedagógica escolar, com uma experiência de mais de 28 anos em educação. É palestrante e terapeuta familiar e de casais. Acompanhem também o blog fabiolasperandiodocouto.blogspot.com.br.
 
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