Educar Sem Complicar

Arrancar fios de cabelo é um distúrbio?

Shutterstock


Nos primeiros anos de vida, o comportamento de arrancar cabelos é usualmente uma manifestação clínica autolimitada, de pouca gravidade e evolução benigna. O ato é associado à busca de conforto e acompanhada de outros comportamentos semelhantes, como a sucção. Entretanto, sua ocorrência mais tardia pode estar relacionada a eventos estressantes e ser acompanhada de prejuízos importantes. Entre eles, os dados estéticos, psicossociais, e complicações clínicas decorrentes da ingestão dos pelos e cabelos, uma característica comum nos portadores de tricotilomania.

Geralmente aconteceu um aumento de tensão imediatamente antes de arrancar o cabelo ou quando se tenta resistir ao comportamento. A sensação de prazer, satisfação ou alívio após arrancar fios também é identificada. Na maioria das vezes, a tricotilomania se caracteriza por comportamentos como inspecionar a raiz do fio de cabelo, enrolá-lo, puxá-lo entre os dentes, mordê-lo ou come-lo. Nesse caso, o bolo de cabelo ingerido ocupa uma parte importante do intestino, causando dores abdominais, náuseas, vômitos, anemia, hematêmese, úlceras, pancreatite e até mesmo perfuração intestinal e abdômen agudo obstrutivo.

A idade média de início desse distúrbio varia entre nove e 13 anos, apesar de haver um grupo de início precoce, na fase pré-escolar. Quando os sintomas aparecem em idades mais tardias, a tricotilomania é frequentemente associada a outras doenças psiquiátricas, como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e outros transtornos de controle de impulso. Essa denominação tricotilomania tem sua origem a partir dos termos thrix (cabelo), tillein (arrancar) e mania, que denotaria um comportamento anormal com episódios de arrancar o cabelo a qualquer lugar e durar minutos. 

Esse distúrbio pode se apresentar de forma leve ou transitória. Nesse sentido, pode ser benigna. Entretanto, pode estar associada ao transtorno obsessivo-compulsivo e desse modo vir a pertencer a um mesmo espectro psicopatológico, muitas vezes de evolução crônica potencialmente grave e geradora de sofrimento e impacto relevantes. Como não existe nenhuma maneira comprovada para prevenir a tricotilomania, ajude seu filho (a) a conhecer mais sobre o que leva a esse comportamento.

Atitudes que favorecem essa descoberta são:

1-Tentar prestar atenção quando esse comportamento se inicia.
2- Identificar os pensamentos, sentimentos, sensações físicas que se fazem presentes no ato compulsivo.
3-Anotar também a mesma sequência de pensamentos, sentimentos, sensações físicas após ter arrancado os cabelos.
4- Prestar atenção nos fios arrancados. Como eles lhe parecem? O que quer fazer com eles?
5- Observar as falhas que ficarão óbvias e escrever novamente sobre a tríade (pensamentos, sentimentos, sensações físicas) que surge.
6- Consultar a história familiar, buscando sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, de ansiedade ou de tricotilomania na família.
7- Tentar ajuda a criança a escolher outras possibilidades de expressar as emoções, como desenhar, escrever sobre elas, falar com alguém etc.
8- Ajudar a fazer um levantamento das conquistas e habilidades da criança, facilitando o contato com as forças pessoais.

As formas benignas de tricolomanina, que ocorrem na primeira infância, podem ser contornadas com algumas mudanças da rotina de cuidados, mas para manifestações mais tardias indica-se o uso de medicamentos ou psicoterapia. Por isso, é importante o diagnóstico precoce da tricotilomania, tanto pelas potenciais complicações clínicas, quanto pelo prejuízo psicossocial. Assim como na tricotilomania, é preciso ficar atento às inúmeras alterações psicopatológicas que podem ocorrer no continuo do desenvolvimento das crianças.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viuva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior! Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e Pesquisadora do CNPq.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.  

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA