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Como a criança lida com a morte dos pais?

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Com a morte de um genitor, a criança perde o mundo que conhecia, aquele em que os pais podiam até se afastar, mas que sempre retornava. Agora, o seu mundo está enlutado. Torna-se difícil lidar com toda a gama de sentimentos que parecem invadi-la com o desmoronamento da família. O luto é o processo de reconstrução, de reorganização diante da morte, de desafio emocional e cognitivo com o qual a criança tem de lidar. A morte de um genitor é uma das experiências mais impactantes que a criança pode vivenciar. Com os pais, morre também a ilusão de onipotência em um momento que ela é necessária como fonte de segurança.

Diante da ausência irreversível de um vínculo provedor de sustentação, a criança se depara com profundos sentimentos de desamparo e impotência. Enquanto a criança não pode reconhecer objetos de amor como sendo separados dela, na eventualidade da perda ou separação da mãe, ela sente que perdeu uma parte de si própria, mas não pode sentir pesar e enlutar-se pelo objeto amado. Em termos de desenvolvimento, podemos pensar que entre quatro e sete meses de idade, aproximadamente, a criança sente pesar e fica enlutada na ocasião de uma perda ou separação de uma figura significativa.

Embora sua capacidade simbólica seja limitada, haveria já o desenvolvimento primitivo de processos psíquicos de elaboração. Apenas a partir de dezesseis meses de idade, aproximadamente, a criança teria mais recursos cognitivos e emocionais para elaborar o luto como o adulto. Considera-se arriscado, no entanto, comparar esse incremento de recursos emocionais da criança dessa idade com a capacidade e laborativa do adulto, uma vez que o psiquismo da criança está em formação. Do ponto de vista dos recursos cognitivos da criança, ela somente compreende a irreversibilidade da morte quando atinge o modo de pensamento “operatório concreto”, por volta dos sete anos de idade. 

A maior dificuldade de compreender a irreversibilidade da morte pode dificultar o processo de elaboração da perda. Entretanto, toda criança tem dificuldade de elaborar a perda de um objeto amado, principalmente aquele do qual depende, pois seu psiquismo ainda está em desenvolvimento e ela necessita das pessoas que garantem sua sobrevivência física e desenvolvimento emocional. Em função da maior dificuldade cognitiva e emocional para significar a perda, a elaboração do luto vivido pela criança é processada ao longo da estruturação psíquica, em distintos momentos de sua vida, à medida que ela vai podendo significar o que viveu.

O luto também pode ser reativado ao longo da vida, ao encontrar ressonância com conflitos do futuro desenvolvimento. Isso não compreenderia patologia, um luto adiado, mas sim a elaboração, já que nenhum trauma na infância pode ser resolvido até que a criança cresça. Portanto, as crianças elaboram o luto, porém têm um modelo próprio de elaboração, sendo equivocado impor-lhes o modelo adulto. Mas seu luto não é uma versão deficiente do luto do adulto. Tem características específicas, haja vista que a criança está em processo de estruturação da personalidade.

O modo como a criança é capaz de elaborar a perda de um ente querido relaciona-se a fatores intrapsíquicos (elaboração da posição depressiva arcaica e recursos para elaborar perdas) e fatores externos (relação com a pessoa perdida, relação com o pai sobrevivente, circunstâncias em que a perda ocorreu, informação recebida pela criança, possibilidade de comunicação sobre o que aconteceu e sobre a pessoa perdida, dinâmica familiar, tipo de morte, rituais, estressores e mudanças no cotidiano da criança) e está em estreita a relação com a possibilidade de elaboração do genitor sobrevivente e do restante da família.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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