Educar Sem Complicar

Como cuidar do corpo que TEMOS e do corpo que SOMOS?

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No blog anterior escrevi a respeito da selfie emocional e o que ela revela. Enfatizei aspectos subjetivos do comportamento humano. Instiguei o leitor para que fotografasse aspectos subjetivos de si mesmo e o questionei se ele mesmo se curtiria. Mas como curtir essas selfies se eles evidenciam comprometimentos emocionais? O que fazer para melhorar a qualidade do que se mostra?

Felizmente, a tecnologia não desenvolveu recursos que possam ser comprados para alterá-la. Por outro lado, recursos psicológicos se encontram a disposição de pais e educadores para facilitá-la. Na verdade, a selfie objetiva retrata o corpo que TEMOS e que construímos. Mas existe simultaneamente ao corpo que TEMOS o corpo que SOMOS.  Alguns filósofos enfatizam que o corpo não é Körper (corpo físico, mas Lieb) corpo vivo. É a respeito desse último que pretendo, hoje, convidá-lo a refletir.
 
Que tal aproveitar uma das cenas mais comuns do cotidiano familiar, na qual a higiene do CORPO que TEMOS é muito evidenciada? Quem nunca se deparou com os discursos das seguintes cenas matutinas, vespertinas e noturnas do dia a dia: “crianças, escovem os dentes. Não se esqueçam de lavar o rosto e pentear os cabelos” ou “venham tomar banho. Esfreguem o cabelo para ficar limpinho. Não basta deixar a água cair. Não se esqueçam de nenhuma parte do corpo. Perfume não esconde a sujeira. Engana, mas não convence. É gostoso sentir o cheirinho da limpeza”.
 
Recordar esses discursos não exige muito esforço. Eles fazem parte dos limites impostos pela educação básica. O que gostaria de sugerir dentro da proposta “Educar Sem Complicar” é que aproveitem esses momentos para cuidar tanto do corpo que TEMOS como do corpo que SOMOS, higienizando também nossas ideias, sentimentos, sensações e comportamentos. Minha proposta é a de sugerir para todos da família que se livrem das bactérias emocionais que ficam se alimentando do ambiente contaminado em que vivem. Assim como a falta de higiene bucal, por exemplo, provoca a incidência de cáries, tártaro, gengivite e mau hálito, uma vez que as bactérias “paradas” dentro da boca formam placas, a falta de gestão das nossas emoções provoca atitudes repetitivas, “placas psicológicas”, que nutrem distúrbios de comportamento.

Reconhecer e reciclar as “bactérias emocionais” que se manifestam por pensamentos, sentimentos, sensações ou comportamentos repetitivos é o primeiro passo para a higienização do corpo que SOMOS. É a arte inicial de transformação positiva das “placas psicológicas” negativas absorvidas ao longo da vida. Tal como um processo de limpeza do corpo que TEMOS, é possível sentir o aroma dos sentimentos positivos, quando o indivíduo se dispõe a se livrar das toxinas psicológicas. 

É importante, ainda, verificar quais alimentos emocionais são digeridos diariamente. Esse detalhe facilita a higiene emocional. Portanto, na prática, vamos incluir na nossa higiene diária e na dos filhos:

1- Ao escovar os dentes, solicite às crianças que subam as mãos uns centímetros e escovem, simultaneamente, os pensamentos. Lembre-as daqueles que são mais constantes em suas falas. Por exemplo: “não dou conta”, “sou burro”, entre outros. 
 
2- Na hora de lavar os cabelos, brinque com as crianças, solicitando que esfreguem os seus sentimentos negativos, que estão criando bactérias nas paredes de seu coração. Eles podem envolver sentimentos de tristeza, de incompetência, raiva exagerada, por exemplo.
 
3- Não se esqueça das sensações físicas, que também precisam ser recicladas. Muitas dores de barrigas, na cabeça, no braço, podem ser vícios verbais que precisam ser higienizados, uma vez que podem estar sendo usados para manipular o ambiente.
 
4- Finalmente, ao lavarem as mãos e os pés, sugiram que lavem aquelas atitudes como a agressividade, por exemplo, que caracterizam a rotina da criança de forma generalizada.

Enfim, por meio de brincadeiras em momentos de muito estresse, como os que se relacionam com os da higiene do corpo que TEMOS, pode-se associar a do corpo que SOMOS. Afinal, ele também exala um odor, fruto da nossa vivência emocional. Lembre-se do efeito boomerang, que enfatiza que o que emitir para o outro voltará para você mesmo. Colabore tanto com o seu processo de higienização quanto com o do seu filho.
 
Enfim, o óbvio: quanto mais você demora para fazer a higiene, mais tempo as bactérias físicas e emocionais têm para agir.  

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 2 e casada com 1 há 36 anos! Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior! Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de capítulos de livros, artigos e Pesquisadora do CNPq

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