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Como lidar com a adoção: o luto do filho ideal

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Embora o luto do filho ideal não seja exclusivo da parentalidade adotiva, pois ocorre também na filiação biológica, existem algumas especificidades no luto de um filho adotivo. Uma delas refere-se à preferência por bebês, que costuma ser justificada pela ilusão de que são mais adaptáveis e fáceis de serem “lapidados”. Entretanto, os pais se esquecem que o filho possui uma história pessoal pregressa, algo que não pode ser negado, ocultado ou rejeitado.

Já quando a adoção é tardia e acontece com uma criança em idade maior, é comum a crença de que essas trazem maus hábitos, apresentando problemas de adaptação, pois trazem o conhecimento sobre a adoção e fortes lembranças do passado. Acreditam que isso lhes traria futuros problemas. Há a crença ainda de que, geralmente, essas crianças tendem a discordar das regras, marcando o direito de dizer “não” na casa. Mas no decorrer do tempo, com o recebimento de apoio e amor, elas podem vir a reescrever a própria história.

Outra especificidade a ser considerado diante da adoção de uma criança é o luto da própria impossibilidade de ter filhos de forma natural, o que tende a causar feridas narcísicas nas pessoas que buscam, de forma inconsciente, deixar descendentes como modo simbólico, burlando a mortalidade. Dessa forma, ao mesmo tempo que a adoção é uma saída, também pode significar a limitação familiar de não poder gerar o próprio descendente. Assim, se o filho adotivo servir de espelho para a frustração inerente a infertilidade, o luto mal elaborado pelo filho biológico que não pôde vir trará dificuldades na relação com a criança ou com o adolescente adotado. 

A elaboração do luto, portanto, envolve também a resolução do conflito entre o filho ideal e o filho real, uma vez que a experiência do luto da perda do filho imaginado favorece a aceitação do filho real na plenitude. Assim, com o elaborar da idealização, o casal passa a aceitar o adotivo como filho e esse, por sua vez, passa a assumi-los como pais. Quando se atribui à família adotiva a função de substituir e imitar a biológica, incorre-se no risco de negar a história de origem e as diferenças da criança. É preciso assimilar as especificidades e os fatores inconscientes que movem os pais no processo de parentalidade adotiva. 

O luto mal elaborado tem reflexos também no que se refere a revelação da adoção. Muitos pais pretendem manter o segredo na esperança de negar o passado da criança. A ideia da revelação traz à tona o receio de se resgatar as origens desconhecidas. Outros familiares acreditam que sofrerão exclusão social. Algumas mães têm medo da herança genética, mas acreditam que a convivência é mais importante para o desenvolvimento da personalidade do que o que trazem da família de origem.

Todas essas questões devem ser amplamente discutidas para que os pais optem em falar sobre a adoção abertamente com a criança. A omissão da verdade desperta fantasias e devaneios que podem ser perturbadores para ela. O não dito marca a adoção como segredo e coopera com o aparecimento de sintomas. O mesmo ocorre quando se fala a verdade, mas se deixam lacunas sem esclarecimentos, transformando o assunto em tabu.

As informações dolorosas a respeito da adoção podem não ter sido assimiladas pelo casal, tornando o processo traumático e prejudicial à saúde psíquica da criança. Entretanto, não é preciso esperar um momento ou idade certa. A revelação deve ser um processo inserido no cotidiano da família. As crianças precisam receber o apoio de um terceiro e ouvir sobre a adoção de forma natural. O pais devem ser receptivos a questionamentos, lembrando-se sempre que a história de cada pessoa é construída continuamente. Quando o filho narra a própria história não só́ a relembra como também a reconstrói, de modo que eventos iniciais não tornam a história definitiva.

Mas há de se destacar, ainda, que o luto pelo filho ideal não é exclusivo da parentalidade adotiva. Ele também acontece na filiação biológica. Nesse sentido, o existir psíquico preexiste ao físico e o ambiente precisa se modificar para acolher a nova pessoa.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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