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Conheça o amigo imaginário do seu filho

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O “faz de conta” representa um importante marco no desenvolvimento humano. Essa brincadeira é a forma, por excelência, que a criança encontra para empregar significados ao mundo que a rodeia, vivenciando situações diversas quantas vezes e da maneira como ela quiser. Entre as diversas formas que a brincadeira simbólica pode assumir, uma se destaca por suas características singulares: a criação de amigos imaginários, que representa um importante marco no desenvolvimento infantil.

Ela surge, em geral, entre os 18 e 24 meses de vida e pode ser realizada a sós, na companhia de pares ou de adultos significativos para as crianças, nos mais diversos ambientes de seu cotidiano. As crianças de idade pré-escolar são as que mais se engajam em brincadeiras simbólicas. No período em que surgem os jogos com regras, a frequência com que os pequenos brincam de “faz de conta” diminui. Há evidências, no entanto, de que após a primeira infância, o “faz de conta” se torna mais privado e as crianças são mais propensas a se engajarem em fantasias quando estão sozinhas ou quando há poucos amigos presentes.

Os amigos imaginários podem vir a se tornar um tipo de companhia para a criança, permanecendo como uma resposta adaptativa se ela estiver lidando com dificuldades no cotidiano. Eles podem também fornecer diversão e companhia quando ninguém mais está disponível, além de aguentarem o impacto da raiva da criança, serem culpados pelos maus feitos, fornecerem um ponto de referência quando precisam barganhar com os pais (como por exemplo: “se meu amigo não quer tomar banho, por que eu tenho que querer?”) ou servir como um veículo para comunicar alguma informação que a criança reluta em dizer diretamente (“meu amigo está com medo do fantasma”, por exemplo).  

O “faz de conta”, portanto, parece ser a primeira indicação da capacidade mental de busca de alternativas à realidade, uma importante conquista que permanece durante toda a vida. Mas afinal, quem é a criança que possui amigos imaginários? Seria surpresa saber que há evidências de que os amigos imaginários sejam até esperados na vida mental das crianças? Antigamente, alguns estudiosos sobre o assunto entendiam que a persistência com que as crianças com amigos imaginários permaneciam imersas em fantasias poderia predizer distúrbios emocionais e sociais. Entretanto, estudos mais recentes sugerem um quadro mais favorável em relação aos amigos imaginários e a associação com aspectos positivos do desenvolvimento. 

Esses estudos evidenciam, por exemplo, que crianças que possuem amigos imaginários apresentam uma vida de fantasia mais rica que aquelas que não desenvolvem tais criações. Elas tendem a inserir figuras míticas em suas brincadeiras e a explicar eventos por meio de mágica. Outras pesquisas também afirmam que crianças com amigos imaginários apresentavam linguagem mais desenvolvida e fazem uso mais frequente de orações adverbiais e adjetivas, conjunções e verbos auxiliares. Nesse sentido, o “faz de conta” parece contribuir para o desenvolvimento cognitivo, em especial para o pensamento abstrato e a criatividade. 

Efetivamente, a brincadeira de “faz de conta” permite a criança ir muito além da diversão, já que durante essa atividade aparentemente recreativa há aprendizagem de habilidades importantes para a vida humana, tais como o monitoramento, a tomada de decisão, o revezamento, a reciprocidade, além de a criança exercitar o uso da linguagem e a interação social. É importante compreender, porém, que a brincadeira simbólica possibilita as crianças, por meio da imaginação, assumir diversos papéis e experimentar o mundo social de um modo ativo e dramático. Desse modo, elas trabalham emoções e compreendem o mundo no qual estão inseridas ao verificarem as consequências dos seus atos e, assim, internalizam regras de conduta.

Portanto, o fato de as crianças se mostrarem absorvidas e emocionalmente envolvidas com suas criações não indica que as estejam confundindo realidade e fantasia. Muitos pesquisadores afirmam que as crianças têm plena noção de que seus amigos imaginários são de “faz de conta”. Não há também motivos para os pais se preocuparem com as características dos amigos imaginários, que são muito variadas. Enquanto algumas crianças possuem apenas uma companhia imaginária, é comum que outras possuam duas ou mais, ao mesmo tempo. Quanto à estabilidade, há casos em que a criança constantemente muda de amigos, transitando entre algumas entidades de “faz de conta” de duração reduzida, mas há também criações que se mantém ao longo de anos, como os curiosos relatos de amigos imaginários que passam de geração para geração, como um legado de fantasia familiar.

Ao descobrirem, portanto, que seu filho tem um amigo imaginário, peça para ser apresentado a ele. Assim, você estará mais perto das necessidades, preocupações, desejos, receios e emoções vividas pelo seu filho.  Às vezes, a descoberta da existência desse amigo imaginário acontece porque os pais percebem que a criança está conversando sozinha ou porque relatam um episódio ou aventuras com alguém que na realidade não existe. Não se assuste. Nem sempre esse amigo existe porque ela tem dificuldades de fazer amizades. É apenas mais um recurso que a criança descobriu para lidar com a realidade e digerir suas emoções.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 2 e casada com 1 há 36 anos! Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior! Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de capítulos de livros, artigos e Pesquisadora do CNPq.

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