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Cor da pele: brincadeira ou preconceito?

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Ainda me lembro de uma criança que atendi, cuja queixa era de que ela não queria mostrar a própria cor. Por isso, mesmo debaixo de 40 graus, a pequena usava roupas de mangas compridas por temer as brincadeiras de mau gosto. De início, me disse que não gostava de ir para a escola, mas depois afirmou que os professores não gostavam dela e, finalmente, confessou sobre o bullying que estava sofrendo.

Brincadeira ou preconceito? O preconceito aparece como um modo de relacionar-se com o outro a partir da negação ou desvalorização da identidade de alguém e da supervalorização ou afirmação da própria identificação. As crianças estão construindo e vivenciando o preconceito racial nas relações sociais, incluindo família e escola, e aprendendo que diferenças corporais em aparência assinalam diferenças em potencial e valor que, por sua vez, legitima injuriosas distinções entre raças. Assim, por meio de disfarces, como gozações e xingamentos, tidos como brincadeiras, as crianças começam a atribuir características negativas a algum grupo racial, mesmo que impensadamente, no sentido de inferiorizá-lo.

Algumas crianças revelam a existência de atitudes negativas em relação à cor da pele. É comum se ouvir alguns estereótipos, como: “preto é feio”, “preto parece diabo”, “lembra ladrão”, “é igual carvão”, “parece macaco”. Esse tipo de “brincadeira”, característica da socialização infantil ao ser considerada coisa de criança pelos adultos, torna-se um eficiente mecanismo social de aquisição, consolidação e objetivação de preconceitos. Quando se pergunta para a criança o motivo que ela xingou ou gozou com um colega, a pequena afirma ser apenas uma brincadeira. Essa violência, muitas vezes mascarada e quase sempre impune, é considerada menos grave porque não traz consequências visíveis no corpo. Entretanto, os danos psicológicos e/ou morais atingem a autoestima da criança ofendida.

Mas qual é a origem disso tudo? As crianças adquirem consciência das diferenças raciais, em média, entre os três e cinco anos. Com o tempo, passam a atribuir julgamentos aos diferentes grupos com base na observação do meio em que vivem. Muitas vezes, a atitude preconceituosa encontra-se dentro de casa. Quando uma criança de três ou quatro anos diz que a babá é “preta e feia”, ela também quer ver a reação dos pais e da própria babá. É um teste de limites, uma busca para saber o que é certo e errado. Quando a mãe aperta a mão a criança ao se deparar com um homem negro atravessando a rua, mesmo que involuntariamente, ela pode estar passando para o filho sinais de discriminação. 

Outras vezes, ao se encontrarem com uma pessoa branca e outra negra, geralmente os pais beijam a primeira e não a segunda. Atitudes como essas são suficientes para que a criança capte os sinais não verbais de discriminação. Nada passa despercebido pela criança, mesmo a influência da mídia. Geralmente, as bonecas mais badaladas e as princesas dos contos de fada são loiras e de olhos azuis. A ênfase dada pelas crianças ao aspecto estético, distinguindo entre o que é feio e o que é bonito, já sugere o desenvolvimento do preconceito racial visual. Desde muito cedo a criança aprende, por exemplo, que cabelo liso é cabelo bonito e esse padrão é reforçado, uma vez que parecem ser raros, senão inexistentes, elogios ao cabelo crespo durante a infância.

Por outro lado, sabe-se que as brincadeiras e as brigas são fenômenos particularmente importantes da socialização das crianças e que ocorrem na escola de diversas formas. Assim, mesmo que os pais não sejam ou não se vejam como preconceituosos, os filhos podem surpreendê-los com ofensas e xingamentos a alguém que apresente alguma diferença. O que se fazer, portanto, para ajudar o filho a conviver com as diferenças? A omissão é o pior ingrediente que se pode assumir, podendo reforçar os preconceitos. É preciso estar muito atento porque, muitas vezes, os xingamentos são velados e acontecem longe dos olhos dos pais e educadores. Assim, se por acaso seu filho for acusado de praticar a discriminação, procure investigar os fatos, pois você pode estar reforçando a mentira dentro de casa.

Compreenda o significado da atitude. Compreender não quer dizer deixar para lá, mas acolher os sentimentos e ensinar a criança a pensar sobre aquilo. E que fique claro: mandar pedir desculpas nunca é demais. Por detrás da brincadeira pode existir um grande preconceito. Por outro lado, se por acaso o seu filho for a vítima, preste atenção no que ele relata. Diante de uma intimidação, ele pode se calar. Fiquem atentos a alterações emocionais e de comportamento. Enfim, utilize o acontecimento discriminatório como um campo propício e básico para a formação e desenvolvimento de aceitação social. Ajude o seu filho a discriminar brincadeira e preconceito. Para isso, reveja os seus próprios valores.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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