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Elogios podem deformar o caráter da criança?

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Elogios podem deformar o caráter da criança? Depende. Tem que ser na medida certa. Um elogio é a valorização de uma qualidade ou virtude de algo ou alguém. É uma ferramenta usada para motivar as pessoas, sendo responsável, no casa das crianças, pela maneira como ele vê a si mesma e perante o mundo. É também um dos alicerces da autoestima, que é a capacidade de admirar a si mesmo, tanto em relação às características físicas quanto ao comportamento e ações. Isso favorece o estabelecimento de relações de confiança e de respeito com as pessoas.

Se a criança não gosta de si mesma, como poderá respeitar, aceitar e amar os que as rodeiam? Entretanto, atualmente tanto os elogios quanto o fortalecimento da autoestima já não se encontra mais vinculada à noção de um comportamento adequado e a nobreza de caráter da criança. Parece que os pais perderam a sensibilidade adequada para discriminar o que, quando e para que elogiam as crianças. 

Muitos pais elogiam em excesso um desenho infantil, muitas vezes sem olhar para o papel que lhes são mostrados. Insistem em afirmar que as crianças são criaturas “superinteligentes”, os “mais lindos do mundo”, “invencíveis” e os “mais importantes do mundo todo”. Outros familiares acabam fazendo uma festa a toda coisa que a criança faz ou fala, de forma incongruente com o que foi realizado. E para que? Para gerar uma falta de confiança no que lhe é dito? Para provocar a desconfiança nos adultos? Para construir uma percepção inadequada de potencial e se exigir fazer sempre daquele jeito para ganhar aprovação? Para que ela acredite em uma falsa realidade, o que pode deixa-la despreparada para lidar com as frustrações? 

Para criar uma pessoa condicionada a receber elogios, afagos verbais de todas as pessoas, incluindo professoras, colegas, entre outras pessoas? Para desenvolverem o vício de transferir para a escola a necessidade do elogio descontextualizado? Para se transformarem em crianças que vivem perto da mesa do professor, buscando aprovação excessiva? Para morrerem de ansiedade quando não são correspondidas nas expectativas, pois os professores e amigos são mais realistas ao elogiar ou criticar um trabalho ou atitude? Para diante das frustrações tornarem-se inseguras ou até mesmo agressivas física ou verbalmente dentro e fora da escola? Para desenvolver o narcisismo infantil? Essas são algumas questões que precisam ser respondidas.

Discriminar o que, quando e para que do elogio é fundamental também para que a criança, no falso excesso de segurança, não se torne preguiçosa por acreditar que tudo que faz, mesmo sem esforço, está certo e vai agradar os pais, já que são seres muito superiores, tornando-se arrogante e com dificuldades no relacionamento pessoal. Em muitas ocasiões, o excesso de elogios pode impedir o desenvolvimento da empatia, da humildade, da honestidade e da autoestima saudável.

Por outro lado, assim como o excesso do elogio pode atrapalhar o desenvolvimento do autoconhecimento, enchendo a criança de expectativas irreais, a falta do mesmo pode levar a autodesvalorização generalizada. Em ambos os casos, tornam-se prejudiciais, pois criam uma dependência neurótica do olhar do adulto.

A medida certa, portanto, deve se basear em expressões verbais e corporais coerentes com as atitudes da criança, decorrentes de uma observação atenta dos pais. Elogie o processo de envolvimento da criança nas atividades a que se propõe participar e não apenas o produto. Acredite que a frustração é educativa e favorece a compreensão da criança que ela tem limitações, que precisa de ajuda e que a humildade é um valor importante.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viuva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior! Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livors, capítulos de livros, artigos e Pesquisadora do CNPq.

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