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Meu filho mudou de escola. Como ajudá-lo?

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O relógio impõe ritmo ao cotidiano das pessoas e os calendários contam os anos, ditando a cadência de nossas vidas. As férias estão terminando e um novo ano escolar começando. A decisão da mudança da escola foi assumida. E agora, o que fazer? Inicialmente deve-se considerar que toda mudança precisa ser bem avaliada, pois terá impactos na vida escolar da criança. A família e a escola são ambientes de desenvolvimento e aprendizagem humana, que podem funcionar como propulsor ou inibidor. Ambas são instituições que compartilham funções sociais, politicas e educacionais, na medida em que contribuem e influenciam a formação do cidadão.

No ambiente familiar, a criança aprende a administrar e resolver os conflitos, a controlar as emoções, a expressar os diferentes sentimentos que constituem as relações interpessoais, a lidar com as diversidades e adversidades da vida. A escola, por sua vez, também tem parcela de contribuição no desenvolvimento do indivíduo, mais especificamente na aquisição do saber, culturalmente organizado em distintas áreas de conhecimento.

Nesse sentido, a troca de escolas justifica-se quando os princípios educacionais da escola e da família deixam de ser os mesmos. Retomar com a criança as justificativas da decisão relacionada à mudança da escola, que devem ter envolvido desde questões práticas até os princípios educacionais da escola e da família, é um bom início de diálogo. A conversa deve enfatizar os benefícios da mudança em primeiro lugar, de forma clara e direta. 

Explicar para a criança que as demandas familiares mudam ao longo do tempo é ampliar a noção de realidade. Descrever detalhadamente os aspectos que alicerçam a tomada de decisão (quer sejam eles de ordem econômica, de localização, entrada de um irmãozinho, dificuldades vivenciadas na relação ensino-aprendizagem ou até mesmo questões que envolvem a organização, a disciplina, os valores éticos e oportunidades de futuro oferecidos pela escola, assim como a perda na confiança do projeto pedagógico da instituição ou na capacidade dela em cuidar da integridade física e moral dos alunos) é de suma importância para o enfrentamento da nova realidade.

Os pais que supervisionam e acompanham não somente a realização das atividades escolares, mas também adotam em casa estratégias voltadas à disciplina e ao controle de atividades escolares terão maior propriedade em analisarem, identificarem e realizarem intervenções nos processos de desenvolvimento e aprendizagem dos filhos. Um exemplo é a decisão da mudança da escola, de forma que os filhos se sentirão seguros diante da mesma.

Levar o filho para conhecer possíveis escolas antes da escolha definitiva é o ideal. Assim, ele se sentirá incluído no processo e ficará com a sensação de que ele tem também o poder de escolha. Caso isso não tenha acontecido, vamos correr atrás do prejuízo. Levar o filho até a nova escola antes de começarem as aulas e o apresentar aos funcionários e professores pode amenizar e solucionar alguns medos da criança. Respeitar e responder todas as dúvidas que a criança tiver em relação à nova escola quantas vezes for necessário é também fundamental. Caso a criança negue a mudança não se assuste. O sentimento de perda ainda é maior que o do ganho, que ainda nem foi vivenciado. A realidade ainda desconhecida não encontra parâmetros atuais com os quais pode ser comparada.

Se a criança ficar retraída inicialmente ou desejar faltar à escola, mostrem que compreendem esses comportamentos e desejos, mas não permita que isso aconteça. Cabe aos pais tentarem descrever as possibilidades positivas que virão ao encontro da criança. No diálogo é importante ouvir os sentimentos da criança no que se refere aos prováveis lutos que deve estar vivenciando. Entre eles, a perda dos colegas de classe com os quais já tem liberdade de comunicação e a rotina estabilizada. A saudade do convívio na escola anterior é inevitável e vai depender do tempo e vínculo que a criança irá criar no cotidiano.

Perguntar sobre e conhecer os novos coleguinhas, assim como escutar sobre a nova rotina, os medos e vergonhas, angustias, e a opinião sobre professores e colegas, favorece a compreensão dos pais a respeito do que a criança está vivendo. Dessa forma, terão maiores condições de favorecer o processo de adaptação. Além disso, apenas o ato de se expressar dará a criança um senso de importância que a ajudará a superar a mudança. Falar com a criança sobre possíveis atitudes que ela pode tomar diante das novidades do cotidiano também a ajuda se sentir mais segura para enfrentar o novo ambiente.

Enfim, toda adaptação é um período carregado de certo nível de estresse e que exige uma atenção redobrada da família. A rotina devagarinho vai chegando e novos vínculos tendem a ser formados. A empolgação dos pais facilitará a criança nessa nova fase. A manutenção do vínculo pais-escola é fundamental, assim como com os novos coleguinhas. Que tal a ideia de convidá-los para frequentarem a casa? Fica a dica.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viuva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior! Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e Pesquisadora do CNPq.

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