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O alcoolismo na família e as consequências para os filhos

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Nascer em uma família onde a bebida determina um conjunto de adaptações decorrentes da irregularidade de comportamentos de um dos membros ocasiona frequentemente sintomas psicopatológicos, como hiperatividade, perturbações do comportamento, consumo precoce de álcool e outras substâncias, disfunções cognitivas, problemas de aprendizagem, sintomas de ansiedade e depressão. Os filhos de alcoólicos, além de estarem mais expostos ao risco de desenvolverem uma dependência, quatro a seis vezes mais que os filhos de pais não alcoólicos, apresentam frequentemente, mais problemas somáticos (atrasos no crescimento) e psíquicos (dificuldades de aprendizagem, imaturidade afetiva, alterações emocionais e do comportamento). 

Algumas crianças podem se:

1- Tornar “problema”, apresentando perturbações psíquicas tais como: comportamentos de isolamento, dificuldades de concentração, atrasos de linguagem, comportamentos agressivos e hiperatividade;

2- Tonar super-responsável, a qual, mesmo sendo muito nova, participa nas atividades diárias da família, como cozinhar, tomar conta da casa, dos irmãos. Ao mesmo tempo, essa criança vivencia sentimentos de vergonha, sentindo-se rejeitada pelos amigos, com medo da crítica e juízos negativos a propósito do comportamento de alcoolismo dos pais. Ela vivencia ainda o sentimento de lealdade perante um segredo, tentando preservar a imagem familiar.

3- Tornar egoísta, acusada de só querer brincar, ignorando os problemas familiares e estabelecendo comportamentos de fuga face ao ambiente do lar ser encarado como insuportável e hostil. Isso a leva a viver no exterior da família o mais tempo possível, manifestando desinteresse por tudo o que se passa na família. Geralmente, são crianças que buscam jogos e brincadeiras de rua com amigos. Por vezes, em horas tardias, numa tentativa de encontrar segurança, calma, atenção e afeto.  

4- Tornar conciliadoras, que tentam evitar discórdias entre os pais, colocando-se no meio deles e utilizando estratégias de negação do problema de alcoolismo. Essa atitude é reforçada pelos próprios pais.

De forma geral, a família alcoólica é violentamente disfuncional, enunciando quatro regras sobre as quais esse sistema se move: rigidez, negação, silêncio e isolamento. Nesse clima familiar, no qual as emoções e sentimentos são reprimidos, os comportamentos no agir podem manifestar-se particularmente com violência. Os filhos de alcoólicos têm elevado risco de maus tratos, sendo relacionados com o posterior desenvolvimento de problemas de alcoolismo e comportamentos antissociais.

Finalmente, filhos de alcoólicos, quando adultos, poderão vir a apresentar dificuldades como ausência de confiança em si próprios e em outras pessoas, dificuldades em identificar e exprimir emoções, dificuldades no envolvimento de relações afetivas íntimas e estáveis e sentimento de culpa. Eles também poderão demostrar comportamentos fixos e controlados, apresentar desenvolvimento de dependência alcoólica e sintomas de ansiedade e depressão. 

Portanto, é hora de rever a ideia de que o álcool possa ser inofensivo. Essa ideia advém da certeza de que sendo uma droga psicoativa, possa ser consumida sem causar nenhum problema à pessoa. No entanto, ela pode levar à dependência física e psíquica, dependendo da quantidade e frequência de consumo. Assim, o álcool pode trazer inúmeras e graves consequências, tanto orgânicas como psicológicas e sociais, o que é tão grave quanto outras drogas consideradas mais potentes.

Ficar atento a como o ambiente familiar tem prejudicado o desenvolvimento saudável dos filhos é dever de toda a família. Mas o segundo passo precisa ser dado. Tratamentos diversos podem ser assumidos pelo contexto familiar, visando tanto o remediar quanto o prevenir. Mãos à obra.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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