Educar Sem Complicar

O drama do dever de casa: ele é realmente necessário à aprendizagem?

Shutterstock


Verdadeiros dramas relacionados ao dever de casa se desenvolvem nos lares, com dia e hora marcados e, muitas vezes, não envolvem apenas a criança ou o jovem com suas tarefas escolares, mas também avós, tios, vizinhos, irmãos, empregadas e, até́ mesmo, secretárias. A lição de casa tem sido objeto de preocupação e de muito desentendimento entre família e a escola. Para ser mais precisa, o desencontro acontece entre professores e alunos, entre os alunos e os pais, entre os pais e os professores. 

O dever de casa, por outro lado, acaba sendo um dos elementos que familiares utilizam para emitir suas opiniões a respeito da escola. Isso faz sentido, porque fora dos muros da escola, o dever de casa é o que há de mais visível de todo trabalho escolar. Assim, percebe-se que a relação entre a família e a escola não se dá sem contradições e tensões quando envolve as questões relativas ao dever de casa. Envolvem aspectos diversificados como a divisão de trabalho entre escola e família, a dosagem da quantidade de dever, a maior ou menor continuidade normativa entre os espaços doméstico e escolar, o sentido das atividades para o estudante, a desigualdade de condições de acompanhamento dos deveres entre diversas famílias, dentre outros.

Nesse contexto, o dever de casa tem se tornado alvo frequente de polêmicas. É preciso compreender, entretanto, que o dever de casa se constitui no principal meio de interação família-escola. É, por um lado, um dos dispositivos curriculares por meio dos quais a escola concretiza seu trabalho pedagógico. É quase impossível separar o educando do filho. Por isto, quanto maior o fortalecimento dessa relação família-escola tanto melhor será o desempenho escolar do filho/educando. É preciso considerar que, tanto a família quanto a escola, desejam a mesma coisa: preparar as crianças para mundo, apesar de apresentarem particularidades que as diferencia.

Considerando que o ser humano aprende o tempo todo, nas mais diversas instâncias que a vida lhe apresenta, o papel da família é fundamental, pois é ela que tem nas mãos a responsabilidade de construir o caminho que o filho irá trilhar. Porém, a escola, enquanto instituição formadora que complementa a família, tem o direito e o dever de fazer essa parceria salutar para que ambas venham dar ao ser humano de hoje uma formação digna para atuar na sociedade como pessoas de bem e preparadas para transformá-la.
 
É comum se ouvir entre as mães a seguinte afirmação: “Acompanhar os deveres de casa faz parte da criação de um filho hoje”. Isso evidencia também a compreensão de que a tarefa de casa é compreendida como um modo de socialização. Para rever o drama do dever de casa, é preciso refletir a respeito dos seguintes critérios: 

1- O tempo gasto pelo filho para fazê-lo, que conforme os valores da família, pode ser considerado excessivo ou insuficiente. Esse critério é extremamente subjetivo e as escolas não tem como satisfazer as famílias nesse particular;

2- A quantidade de deveres de casa. Muitas vezes se pensa que quanto mais atividade para casa melhor é a escola. Mas o que passa despercebido é que o que importa é qualidade desse dever de casa. 

É importante propiciar ao educando que esse momento de estudo esteja sob o olhar da família e que o aluno relembre o que foi trabalhado em sala de aula. Muitas vezes, a família não tem como saber no dia a dia como o filho/aluno está se desenvolvendo nos estudos por não ter acesso diretamente na participação em sala de aula devido a circunstância do trabalho. Assim, ela não faz ideia se o que está́ sendo realizado na escola diariamente é de boa qualidade e o quanto o educando consegue aprender durante a aula. Portanto, é imprescindível que o dever de casa seja bem atribuído ao aluno no decorrer do bimestre e do ano letivo, pois ele vem contribuir com a família para que se realize esse acompanhamento em casa. 

A família vai perceber quanto tempo o filho se dedica aos estudos e vai conferir facilidades ou não com o conteúdo, além das dificuldades da própria criança em lidar com responsabilidades ou com a administração do próprio tempo. Por isso que a escola, ao redimensionar a proposta pedagógica, precisa pontuar com relevância as estratégias e ações sobre a função social para que se efetive de fato esse trabalho, priorizando nesse processo um ensino-aprendizagem de qualidade. 

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA