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Quando meu filho se reconhece no espelho?

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A aventura original por onde o homem faz, pela primeira vez, a experiência de se ver, de se refletir e de conceber outro do que aquele que é, é uma dimensão essencial do humano, que estrutura toda a vida fantasmática. O olhar não é o mesmo que visão. Ele aponta para investimentos, atenção e cuidados. Exatamente no que ele é contrário à visão, enxerga não o que está aí, mas um vir a ser. Ou seja, trata-se do olhar fundador do outro.

O olhar e a imagem tomam entre si uma referência. Um não existe sem o outro. É através do olhar que a imagem se constitui e ele, por sua vez, não tem um sentido sem a imagem. É a dependência do visível em relação aquilo que nos põe sob o olho do que vê̂. Você já observou seu bebê com o olhar fixado no espelho, observando o reflexo como se fosse estranho a própria pessoa? Apesar do estranhamento, o bebê, entretanto, esboça um sorriso. 

Qual a idade dessa criança? Se tiver apenas três meses, a criança é insensível à imagem do espelho, mas no decorrer do quarto mês, mudanças podem ser observadas. Isso acontece até os 18 meses, quando se encerra a etapa do reconhecimento de si e do outro no espelho. Gradativamente, a criança antecipa a forma do próprio corpo por meio de uma identificação imaginaria com o semelhante, para só depois construir a noção de corpo simbólico.

Aos seis meses, o bebê sorri quando se olha no espelho e, posteriormente, para a imagem do outro. Quando, porém, escuta a voz do outro vinda de trás, volta-se para examinar quem está ali. Precisa confirmar se é a mesma pessoa que vê no espelho. Isso porque ele ainda não consegue fazer coincidir no mesmo tempo e espaço um reflexo e uma imagem real.

A criança percebe com perfeição a relação existente entre a imagem e o modelo, mas não apreende a existência de uma relação de dependência entre ambos. Já no décimo mês, a criança estende os braços para a imagem e olha para ela quando chamamos por seu nome. Assim, ela representa o corpo próprio por meio de fragmentos.

Para unificar seu “eu” no espaço, a criança tem de obedecer a uma necessidade dupla: é preciso que admita a existência de imagens que pareçam com o real e deve afirmar a realidade de uma existência que escapa a percepção. A prova do espelho serve para a criança introduzir as distinções e equivalências entre o eu e o mundo. Nela, forma-se a noção de corpo próprio, que conduz à unidade do eu. 

Em um primeiro momento, essa prova situa-se no âmbito da especular idade: não há relação entre a imagem refletida no espelho e a real. Entretanto, por volta de um ano de idade, a capacidade de estabelecer distinções no espaço define a função simbólica e inaugura o campo para uma verdadeira aprendizagem da realidade subjetiva e objetiva. Aos 15 meses, o espelho assume uma nova feição. Para mostrar a mãe, a criança a percebe, primeiro, pelo espelho e depois, se volta para ela sorrindo.

O ato de “ver-se vendo” instaura no indivíduo a sensação de existir no mundo e compõe a constituição de um eu fora de si mesmo com função de entender-se, “saber-se” dentro de um espaço e de um tempo. É a imagem do corpo próprio que dá ao sujeito a primeira condição que lhe permite situar o que é do eu e o que não é. Isso se encontra definitivamente formada até os 16 meses, quando o bebê se reconhece no espelho.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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