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Seu filho tem amigos virtuais ou reais?

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Aonde estão os amigos de seus filhos? As amizades deles são guardadas “no lado esquerdo do peito” ou nas redes sociais? Será que cem amigos cabem no peito, com força necessária para superar conflitos? Ter amigos no mundo atual, sem dúvidas, é ter várias pessoas adicionadas no perfil do Facebook, ter vários seguidores no Twitter, Tumblr ou Instagram e ter vários contatos no WhatsApp. Mas ter amigos verdadeiros não é um simples “ter”, mas sim um “ser”.

Com o processo de globalização, para se começar uma nova amizade basta adicioná-la em uma rede social e aguardar que ela aprove a solicitação. Dessa forma, virou hábito denominar os convites aceitos como “amigos”, sem que se estabeleça laços que caracterizem uma amizade. O mais sensato seria nomear os aceites de “novos conhecidos”.

A amizade é uma importante ferramenta para a saúde emocional das crianças (embora também possa prejudicá-la) e é fruto das interações sociais, onde há reciprocidade e cooperação. O “olho no olho”, o observar de cada gesto, cada expressão sendo percebida e captada por todos os sentidos deixa a criança mais capaz e esperta para entender a linguagem corporal mais subjetiva, que muitas vezes não é expressada em palavras e só a percepção aguçada, treinada pela experiência, permite entender.

A amizade presencial favorece a captação de sentimentos ao vivo, que não tem, nem de longe, comparação com bonequinhos amarelos chorando, rindo ou mesmo os amigos virtuais. A criança aprende a escutar com o coração, a enxergar olhos marejados de lágrimas de alegria ou de tristeza. Ela aprende a captar sorrisos ocultos, de ironia ou de prazer. Isso não tem preço e não pode ser substituído.

A amizade na infância representa, portanto, uma importante forma de socialização, não se podendo negar que ela contribui para o desenvolvimento intelectual e afetivo. Assim, se uma criança for privada de estabelecer relações, comparar, dar opiniões e estabelecer trocas presenciais, sejam afetivas ou cognitivas, provavelmente ela será emocionalmente instável. Presencialmente, a amizade também age como um fator de proteção social, que traz benefícios a autoestima e ao bem-estar da criança.  No âmbito escolar, por exemplo, ela facilita, entre outras coisas, um melhor ajustamento da criança nesse ambiente, além de trazer benefícios para o rendimento escolar. 

Entretanto, o conceito de amizade vai se alterando ao longo do processo de desenvolvimento, a medida em que a criança vai se tornando cada vez mais capaz de pensar sobre relacionamentos. Ela se torna capaz de pensar sobre o outro numa perspectiva mais empática. Isso porque só no decorrer da evolução do pensamento operatório, por volta dos sete anos de idade, é que será possível estabelecer uma relação com o outro não mais governada pelo egocentrismo dos primeiros anos de vida.

É possível observar que o conceito de amizade vai se alterando ao longo do processo de desenvolvimento, partindo de uma ideia mais simplista e egocêntrica e indo até um ideal de empatia e companheirismo. Nota-se que as crianças de sete anos vinculam o fato de não fazerem mal ao outro com a amizade. Já as de nove anos definem amizade pelo fato de terem o outro incluído na vida. As de 11 anos, por outro lado, definem que não é só deixar de fazer o mal, nem só o fato de terem o amigo fazendo parte da vida, mas relacionam amizade à possibilidade de estarem próximos, de fazerem coisas juntos. Aí sim a criança começa a conciliar a própria vontade com a vontade do outro e experimenta um grau de socialização diferente do que o experimentado nos primeiros anos de vida.

Em relação ao início de uma amizade, a maioria das crianças aponta que a relação começa por meio da conversa e da brincadeira. Outras crianças afirmam que a amizade começa quando se "dá carinho e empresta coisas". Esses aspectos enfatizam que a amizade na infância, em essência, é caracterizada por brincadeiras, diversão e companheirismo presenciais. Assim, de forma paradoxal, quem gasta muito tempo com uma infinidade de amigos virtuais fica sem tempo para ser amigo de amigos reais. E quem passa mais de duas horas conectado com os amigos virtuais pode ter o dobro de chance de se sentir solitário em função da possível sensação de isolamento social. 

Os sentimentos de isolacionismo social e de solidão são um rápido e eficaz atalho para a depressão. Saber que em algum lugar do mundo existe alguém que concorda com as opiniões, que gosta das mesmas coisas que a criança, acaba gerando solidão por evitar o contato na vida real. Conversar pessoalmente passa a ser algo estranho, desconhecido. Essa sensação de isolamento social também é fruto da dependência que tem sido estabelecida pelo número de curtidas dos ditos amigos, que a criança afirma possuir. Curtir significa aprovar, gostar, aproveitar algo ou alguém. Assim, a criança fica com a falsa sensação de aprovada.

É preciso se preocupar com crianças que têm dificuldades de se relacionar pessoalmente e encontram nas redes sociais um refúgio, uma maneira de escapar da solidão na qual se encontram na vida real. As redes sociais passam a funcionar como mecanismos para que essas crianças possam interagir com as outras, bastando um interesse em comum. Assim, cria-se vínculo afetivo baseado no prazer e utilidade, o que não caracteriza um vínculo afetivo real.

É preciso verificar as bases das amizades de seu filho. Segundo o filósofo Aristóteles, podemos classificar as amizades em três tipos distintos:

1) A amizade segundo o prazer;
2) A amizade segundo a utilidade;
3) A amizade segundo a virtude (amizade perfeita).

A amizade segundo o prazer se estabelece por conta daquilo que é agradável em um indivíduo para o outro e, geralmente, não por causa do caráter da pessoa. Crianças espirituosas, por exemplo, atraem muito as tímidas e promovem boas gargalhadas. Esses vínculos merecem atenção. A amizade segundo a utilidade é estabelecida pelo bem que uma pessoa pode receber da outra. Mais uma vez, as pessoas envolvidas nesse tipo de relação não se amam por causa do caráter, mas sim devido a uma utilidade recíproca.

Já a amizade segundo a virtude só pode se estabelecer entre as pessoas que são bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico e são bons em si mesmos. Têm-se aqui a certeza de que os amigos se amam pelo que são e desejam o melhor para o outro, sem esperar nada em troca. 

Seguindo essa linha filosófica de Aristóteles, é possível afirmar que as redes sociais, por si só, não produzem amizades perfeitas (amizades segundo a virtude). As redes sociais estão aí e vieram para ficar. É um fato. Entretanto, é preciso estar atento a dose na qual elas têm sido usadas pelas crianças.

Amigos reais ocupam “o lado esquerdo do peito”. E os virtuais?  Reflita.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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