Educar Sem Complicar

Sexualidade e seus apelido: algumas consequências

Shutterstock


O tema sexualidade ainda é pouco discutido e, por isso, ainda prevalecem articulações conceituais do senso comum que causam muitas confusões. O pior é que essas articulações se naturalizam de tal modo que se tornam quase imperceptíveis, produzindo consequências demasiadamente importantes para serem ignoradas. Será que sexualidade infantil é aquela sobre a qual não se pode falar e, por isso, deve ser ignorada ou “mal falada”?

Não se pode ignorar que o corpo da criança é a matriz da própria sexualidade. É por meio dele que ela sente e percebe o mundo desde que nasce. É também pela proximidade física dos pais que desde bebê ela percebe amor e a sensação de segurança. Digo matriz sexual também porque o corpo do bebê possui muitos pontos anatômicos, que geram e produzem sensações, incluindo a excitação sexual. Por isso, ele sente prazer e desprazer corporais provenientes dos afetos e das carícias provocadas pelos outros, evidenciando uma sexualidade infantil sentida, vivida e simbolizada de maneira singular.

Portanto, a sexualidade é uma dimensão humana que acompanha as pessoas ao longo de toda a vida, num conjunto de tudo que ouvimos, vemos, sentimos e recebemos da família, escola, comunidade e cultura onde estamos inseridos. Dessa forma, é muito útil o questionamento de como a família de forma geral tem contribuído ou não para o desenvolvimento de uma sexualidade saudável dos filhos com discursos adoecidos. A criança ao receber, por exemplo, a informação de que o próprio corpo se trata de algo vergonhoso, apelidado de forma nojenta e pecaminosa passa a ser não apenas portadora, mas também propagadora de um conjunto de princípios e opiniões alicerçadas num pudor excessivo e inibidor de qualquer forma de expressão de sexualidade.

Para começar, vale a pena investigar sobre os apelidos que emitem para as genitálias tanto femininas quanto masculinas. Para as femininas, é comum escutar apelidos como barata, aranha, perereca e vassoura. São nomes que sugerem nojo, medo e que assustam. Já para a masculina, nomes como pistola, passarinho, documentos etc. Essas noções passadas são fixadas na mente infantil e levam, mais tarde, a uma imagem distorcida do funcionamento da genitália. Sensações que o corpo tem partes que “não se pode chegar perto”, que são “nojentas” e que não se sabe como podem ser utilizadas.

Aos dois anos de idade a criança possui apenas o raciocínio concreto. É a fase em que o conhecimento das palavras aumenta e o aprendizado dos nomes do corpo também. A criança já aprende nomes como joelho, pescoço, orelha, que são verbalizados normalmente. Entretanto, essa mesma atitude não ocorre com os nomes da genitália masculina (pênis) e feminina (vagina), devido ao próprio constrangimento. Como nessa fase o abstrato ainda não está formado, os pais devem cuidar da linguagem que usam.  Se eles brincam, dizendo “você parece uma bola gordinha”, a criança começa a se imaginar uma bola.

Imagine se o pai fica preocupado com os documentos que sumiram se a criança teve a genitália apelidada por “documento”. Sem pensamento lógico natural dessa fase e com a capacidade de iniciar a percepção do outro, não se deve permitir que a criança permaneça no quarto dos pais e presencie uma relação sexual. Além de não conseguir abstrair sobre o que está acontecendo, a criança pode perceber a atitude do pai como agressividade em relação a mãe. Como exemplo, pode começar a inventar nomes para o que presenciou e ampliar o repertório adoecido frente à sexualidade.

*Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA