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Você pode gerar sintomas psicológicos graves no seu filho

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Você sabia que a identidade é uma questão de com o quem a criança se identifica e em que campo se encontra? Sabia que, para que ela saiba quem é, é preciso saber onde está, com que pessoas se encontra (familiares, amigos...), em que lugar vive e a cultura de forma geral? A identidade da criança se constitui na relação com o mundo e o outro em um processo integrativo das experiências internas e externas vividas no campo das relações intersubjetivas. Assim, qualquer sintoma da criança não está dentro do “eu” da criança, isolado do contexto familiar e social.

Como ela não tem autocontrole, os pais comandam o cotidiano, tentam impor crenças, valores e, muitas vezes, até o corpo do filho. Se a criança tem um bom senso de “eu”, ela não se sente ameaçada pelo poder dos pais. Ela aceita e interpreta o poder parental como um meio de dar-lhe segurança e proteção. No entanto, geralmente a criança se depara com a angústia da escolha de permanecer na união confluente e dependente com os pais ou buscar a separação, visando a independência. Assim, a dúvida da opção entre si (autonomia) ou os pais (domínio parental) é intensamente vivida.

Você é uma mãe ou um pai superprotetor? Para resguardar a criança de dor, sofrimento, angústia, doença ou qualquer acontecimento dramático, age com excessiva preocupação? Sua superproteção, oriunda de boa intenção, desperta o sentimento de incompetência, fragilidade e incapacidade na criança? Você é ansioso em relação aos próprios traumas de infância e em relação aos próprios pais? Você é ameaçador, violento, agredindo parceiro ou filhos? Se sensibiliza demasiadamente com os medos da criança, supervalorizando-os e, por isso, dispensando-lhe uma atenção afetiva exagerada, que só reforça a insegurança, fragilidade e o medo de separação? É imaturo, infantilizando a criança e inibindo o desejo de independência? Percebe o mundo de forma negativa e hostil, onde as pessoas externas à família são perigosas e não confiáveis?

Bem, se os pais transmitem a criança uma visão negativa do mundo, manifestam comportamentos dessa natureza ou, pela superproteção, inibem a capacidade defensiva da criança no enfrentamento da realidade, o pequeno pode aprender crenças fóbicas e desenvolver transtornos de ansiedade. A percepção da fragilidade paterna também pode gerar desconfiança, uma vez que não serve como fonte de proteção, amparo e confiança. Assim, a criança fóbica, por exemplo, sente-se indefesa diante de um mundo hostil e opressor, sofrendo o dilema da individualidade/alteridade, que a reduz a um ser dependente de um outro.

A criança fóbica projeta no desconhecido, no objeto, na situação (roupas, ônibus, pessoas estranhas, animais) o perigo da ausência (ou presença) e a falta de suporte parentais. Sentimentos de desamparo, desproteção e de incapacidade de autodefesa estão também presentes na angústia, que passa a ser transformada em ansiedade para que possa ser enfrentada. Caso contrário, a criança viveria uma iminente e confusa sensação de aniquilamento. 

A fobia é uma reação exagerada de medo excessivo e irracional, desencadeada pela presença ou antecipação de um objeto, lugar ou situação aterrorizante, que leva a uma sensação de descontrole do corpo e da mente. Do ponto de vista psicológico, representa uma expressão simbólica de conflitos relacionais carregados de fantasias de morte, destruição, doenças, que escondem o impulso agressivo dirigido ao outro significativo amado, hostil e/ou temido. 

Outros transtornos também são frutos das relações estabelecidas no ambiente que a criança vive. Os transtornos de ansiedade mais comuns da infância são: ansiedade de separação, ansiedade fóbica e ansiedade social. Os comportamentos problemáticos correspondentes a cada um (medo de ficar sozinha, ficar longe da mãe, sair de casa, ir ao banheiro sozinha, dormir sozinha, ir à escola, escuro, insetos e/ou animais, estranhos...) têm expressão em sintomas clínicos, nos quais a criança pode apresentar: choro fácil; ataques abruptos de raiva; mordidas nos próprios lábios; pesadelos; roer unhas; irritabilidade; comportamento aderente/pegajoso; timidez; passividade; retraimento; enurese noturna; sudorese nas mãos e pés, dentre outros.

A criança fóbica-ansiosa mora em uma casa “mal-assombrada”, vivendo dramas afetivos calcados na falta de confiança, segurança e suporte. A criança tem medo do espaço interno da própria casa, de ficar só, de se deslocar sozinha pelos aposentos, de dormir sozinha, quando naturalmente a casa deveria ser sentida como um “útero protetor”. A criança toma-se por um eu desamparado, frágil, dependente, que não confia em si. Ela teme o outro, o estranho ou certas situações. Qual a sua responsabilidade? Algumas temáticas conflitivas experimentadas como fundo das relações parentais são os dilemas do contato da união/separação e da dependência/independência. Como você está gerando sintomas psicológicos graves no seu filho?

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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