Meu Direito

A Rússia de Rasputin e os hemofílicos goianos

Reprodução

Alexander Kérensky foi advogado de revolucionários, segundo e último primeiro-ministro do Governo Provisório Russo, sucedido por ninguém menos que Lênin. Homem de grandes feitos em tempos difíceis, Kerensky é autor de uma frase que, 50 anos após sua morte, ainda gera debates acadêmicos mundiais: “Sem Rasputin, não haveria Lênin”. 

Grande parte do ocidente conhece Lênin. Rasputin ainda é um mistério na própria Rússia e hoje é inclusive personagem de enredos vampirescos. A figura de Rasputin pende para o místico curandeiro e o charlatão que, conforme relatos, curou o herdeiro imperial, o czarevich Alexei Romanov, único filho do czar Nicolau II, de hemofilia.

O menino e toda a família sofreram muito com a doença, que é genética hereditária e transmitida pela mãe, que não sofria do mesmo mal. Diante da cura milagrosa operada no filho, a czarina Alexandra dedicou ao benzedor atenção cega e confiança desmedida, chamando-o de "mensageiro de Deus".

Com “as costas quentes”, Rasputin passou a influenciar a Corte e principalmente a família imperial russa, mesmo com um comportamento considerado dissoluto e devasso (relatos das suas orgias eram muito comuns). Sua amizade com os Romanov e inimizade com outros políticos fizeram com que fosse vítima de várias tentativas de assassinato cujos livramentos lhe impuseram uma aura de sobrenaturalidade e a disseminação de boatos de que mantinha pacto com o demônio.

Pois na ausência de Rasputins por aqui, os hemofílicos brasileiros estão às voltas não só com os medicamentos que podem lhes trazer conforto, mas com grandes guerras judiciais movidas contra a União, os Estados e até contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA.

É que inúmeros hemofílicos, entre os anos 80 e 2000, em razão das necessárias transfusões, acabaram recebendo sangue sem controle e contaminado por vários vírus, em especial o da AIDS e da Hepatite C, provando que a fiscalização e regulamentação eram totalmente falhas.

Em Goiás, existem várias decisões judiciais condenando os responsáveis ao pagamento de danos morais, materiais e pensionamento vitalício tanto aos hemofílicos contaminados, quanto aos parentes dos que já faleceram pelos mesmos motivos.

Aqui nos valemos de juízes. Quanto ao Rasputin, não sabemos se ele foi desta para melhor ou para pior. Deixo Lênin para quem quiser fazer seu próprio juízo. O czarevich curou-se da hemofilia, mas foi assassinado alguns anos depois, ainda menino. Gosto de pensar que a Princesa Anastácia livrou-se milagrosamente, se tornou a princesa de um país minúsculo e ainda desconhecido do Golfo e as joias imperiais foram salvas, afinal eram belíssimas, e por fim, encontrados os oito Ovos Imperiais Fabergé desaparecidos. Porque no final tudo acaba bem!

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA