Meu Direito

Beethoven e o ilosone líquido

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“Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!”

        Ludwig van Beethoven, no auge da carreira, aos 20 e poucos anos, quando se descobre ensurdecendo

 

A música nunca mais foi a mesma depois de Beethoven, aclamado como o maior compositor do século XIX. Os estudiosos distinguem-no como um dos poucos homens que merecem a adjetivação de "gênio" e essa qualificação acontece quando ele, praticamente surdo, pensa, por vezes, em se matar, conforme seu próprio desabafo acima. Críticos escreveram que “o resumo de sua obra é a liberdade”.

Beethoven buscou todos os tipos de tratamento para a surdez, sem qualquer sucesso, e suspeita-se que tenha morrido acidentalmente envenenado por chumbo, substância presente nos medicamentos que utilizava.

A vida honrou a genialidade de Beethoven, assim como a história tem buscado a razão de sua morte. Contudo, não existe ninguém mais a ser punido a não ser a própria humanidade, que foi privada de uma virtuose sem igual. Enquanto escrevo, ouço Sinfonia n.º 5, o que me eleva sobremaneira o espírito, eis que andam juntos palavras e arranjos musicais.

Medicamentos errados podem matar e foi o que quase aconteceu com uma menina de Eunápolis, na Bahia. Uma grande rede de farmácias daquela cidade foi condenada a pagar R$ 40 mil de indenização à família por ter vendido a medicação errada. A criança tinha pouco mais de um ano de idade quando apresentou os sintomas de febre. A médica receitou três medicamentos: eritromicina oral, nistatina oral, paracetamol e gingilone. No entanto, o funcionário da farmácia, de posse da receita, vendeu à mãe da menina o medicamento “ilosone tópico 20 mg/ml,” apontado como genérico da droga eritromicina, prescrita no receituário.

Ao tomar o remédio, a criança apresentou lesões na mucosa da boca, perda de peso, vômitos, desidratação, sangramento de gengivas, estomatite, entre outros sintomas, além de ter ficado internada durante quatro dias.
Segundo a decisão judicial, foi constatado que a eritromicina, prescrita pela médica, é destinada ao tratamento de infecções internas e tem uso oral. Já o remédio vendido pela farmácia, tinha uso tópico, embora tenha sido administrado inadequadamente por via oral, após a orientação do funcionário. Sorte da criança que foi socorrida a tempo e, diferentemente do que aconteceu com Ludwig, que no entender de Goethe era “uma criatura completamente indomável” e morreu por uma situação completamente evitável. Quis o destino. O que quer o destino?

 

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018

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