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O veneno do basilisco

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"Porque eis que envio entre vós serpentes e basiliscos, contra os quais não há encantamento, e vos morderão, diz o Senhor." (Jeremias 8:17)

Alguém aí já viu um basilisco? Sabe como ele realmente é? Procurei, mas não encontrei catalogação para esse ser fabuloso. Às vezes monstro imenso como dragão, às vezes uma fantástica mistura de galo com cobra. Da Vinci escreveu que o basilisco seca as plantas com um simples olhar. Percy Shelley (marido da Mary Shelley de Frankenstein) falou sobre o monstro na sua Ôde a Nápole: “Sê como o basilisco, que o inimigo mata por invisível ferimento.”

O que é certo é que o basilisco nasce de um ovo de galo velho, de sete a 14 anos de idade, e que precisa ser jogado no esterco e chocado por um sapo. Nessas condições apropriadas, cria-se uma das mais fantásticas feras de todos os tempos, pois o bafejar do basilisco mata seres vivos em segundos, queima as plantações e despedaça as pedras. Ele possui o mais potente veneno de todas as criaturas vivas e, por isso, os ficcionistas o adoram. 

O basilisco já apareceu em Harry Potter, na série Os Heróis do Olimpo de Rick Riordan e até nos livros da série Guerra dos Tronos. J. K. Rowling, autora de Harry Potter, teve acesso a maiores informações e descobriu que o basilisco vive 900 anos. Para refinar essa fábula, eu acrescentaria um limite: nem um dia a mais, nem um dia a menos – o tempo é importantíssimo na criação de uma figura lendária e dá status ao storyteller.

E é assim, por causa de um vento, vento de morte e de dor, que a lenda foi propagada desde antes da Idade Média e assombrou milhares de pessoas... Mas está enganado quem pensa que o basilisco não existe nos dias de hoje. Ele existe sim... só trocou as penas do galo e a cauda de cobra, trocou o voo do dragão e o beijo despedaçante por um sopro da indústria química. E o mundo agora está vendo isso.

Você com certeza já ouviu falar do “Randap” ou “Roundup”, que é o herbicida mais usado no mundo, fabricado pela Monsanto. Agora, o produto pertence à empresa farmacêutica alemã Bayer. No início deste mês, um júri da Califórnia condenou a Monsanto a indenizar em mais de 2 bilhões de dólares um casal que desenvolveu câncer depois de usar o Roundup por mais de 30 anos nas plantações, marcando a terceira e maior condenação contra o produto da história.

Alva e Alberta Pilliod receberão, cada um, 1 bilhão de dólares em danos morais e mais de 55 milhões de dólares em indenizações compensatórias. Após a decisão, a Bayer sofreu queda no preço das ações e agora enfrenta processos semelhantes de milhares de pacientes com câncer, sobreviventes e famílias que perderam entes queridos para o NHL, que é um tipo de câncer que afeta o sistema imunológico. O fundamento da condenação é que o Roundup foi mal projetado, que a empresa não avisou aos consumidores sobre os riscos de desenvolver a doença e que a Monsanto agiu com negligência.

O caso revelou documentos internos da empresa demonstrando que ela "intimidou" os cientistas ao longo dos anos e, de acordo com um dos advogados do casal Pilliod, “existe uma montanha de evidências sobre a manipulação da ciência, da mídia e das agências reguladoras quando afirmam ser o glifosato seguro à humanidade”. O Glifosato, um herbicida sistêmico, é um dos princípios ativos do Roundup. A Bayer, em nota oficial, disse que vai recorrer.

E aqui no Brasil? Já imaginou quanto de Roundup existe nos nossos ares? É só olhar para os céus e observar os basiliscos sobrevoando nossas cidades e nossas casas. Eles estão por aí, doidos por um beijo. Vou fechar as janelas, afinal, como disse Jeremias, contra eles não há encantamento.

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.

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