Meu Direito

Steve Trevor e Cronos, as filas de bancos e o tempo perdido

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Tenho reservado o domingo para o nada. O completo nada. O nada mesmo. Minha mente se deu conta de como eu preciso dele. No nada desse último domingo, até que o sono me pegasse, fui para Themyscira. Revi “Mulher-Maravilha” e, de novo, fiquei encantada com os braceletes, a espada de alguma coisa, laço de outra e os pulos de fazer o Homem-Aranha morrer de vergonha. Os diálogos do filme são inteligentes e instigantes. 

Em uma das muitas cenas interessantes do filme, uma particularmente chama a atenção: Diana se depara com Steve Trevor pelado e o relógio de pulso dele, que não está no pulso, desperta a atenção dela. Como na ilha não existe tecnologia, ela pergunta o que é aquilo. Ele responde e o diálogo entre os dois passa a ficar ambíguo: “E você deixa essa coisa pequena te dizer o que fazer?”

Pois é, os relógios mandam em nós. Eu tenho uma queda pelo tempo, que é um dos fenômenos que mais me faz pensar. Gregoriano ou Juliano, o tempo é tanto uma construção filosófica quanto uma realidade física. “O que então é a hora?”, perguntou Santo Agostinho há quase dois milênios. “Se ninguém me perguntar, eu sei o que é. Se eu quiser explicar para quem pede, não sei”, disse.
 
O tempo, como construção real, cria situações filosóficas de primeira grandeza: Até recentemente, quando os marinheiros navegavam pelo Oceano Atlântico, precisavam de três meios de cronometragem. A posição do sol informaria a hora local de dia - a hora solar. As estrelas contariam uma hora local diferente à noite - horário sideral. E assim, eles poderiam usar essas duas leituras para saber onde estavam e um relógio a bordo contaria a hora local do porto de origem, definida em relação ao Tempo Médio de Greenwich.

E se você for homem e tiver passeando pela Grécia, pode visitar o Monte Athos, que é uma ilha onde nenhum tipo de fêmea é admitido, nem galinhas e nem vacas... Zero mulher. No Athos, patrimônio mundial da UNESCO, a hora depende da estação. Athos corre em tempo bizantino, com o relógio redefinido ao amanhecer a cada dia – são descartados outros sistemas que não seja o "tempo cósmico". 

Cronos foi ou é um sujeito complexo e os homens (aqui sem distinção de gênero) sujeitos confusos. Tanto é verdade que, enquanto vivemos no ano 2019 no Brasil, a China está em 4717, o Irã em 1397, o Paquistão em 1440 e Israel em 5.779, uma verdadeira Babel cronológica. E como tudo na vida e no mundo possui dois lados (ou até mais), o tempo pode ser bom ou ruim, depende do observador.

Para as instituições bancárias brasileiras, o tempo tem sido bom, pois de acordo com recente decisão do STJ, o tempo que o cliente espera na fila para atendimento não gera dano moral. O relator do processo, ministro Luis Felipe Salomão, defendeu que a espera em uma fila pode ser classificada como mero desconforto. "Essa espera não tem o condão de afetar o direito da personalidade, interferir intensamente no bem-estar do consumidor de serviço”, disse. Com certeza o Ministro nunca ficou em uma fila.

Assim, mortais, como eu e você, podemos ficar mais de três horas esperando atendimento bancário que não há de ser nada. Melhor jogar o reloginho fora Steve Trevor... essa sua coisinha pequena não manda em nós. 

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.

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