Mulheres em Círculo

A travessia que nos conduz à sororidade

Shutterstock


O processo de iniciação do autoconhecimento nem sempre chega de forma suave. Às vezes, temos de passar por processos dolorosos, tempestuosos e por redemoinhos. Esses redemoinhos podem nos conduzir a lugares áridos e de grande solidão, mas também nos move de um lugar a outro. 

Falo isso para contar uma pequena historinha que aos ouvidos de outras mulheres poderia não significar nada. Quando já cruzamos boa parte da ponte que nos divide entre aquelas que pensam que sabem tudo e aquelas que, mesmo sabendo, ainda acreditam que muito têm para aprender com outras mulheres, ouvir algumas conversas nos toca profundamente, seja causando desconforto ou nos reconfortando.

Um dia desses ouvi, por acaso e não por acaso, a fala de uma jovem mulher de mais ou menos 25 anos, com um filho e casada, que me causou um certo desconforto. Ela se referia às mulheres que fazem parte da própria vida, e que vieram antes dela, com expressões degradantes. Se referia a mãe como uma mulher ignorante, a sogra como uma louca e as tias como idiotas.  Todas, segundo ela, eram mulheres velhas e horrorosas, das quais queria distância. 

Fiquei ali em silêncio e imaginando como de fato seriam todas essas mulheres. Lembrei-me imediatamente do livro “Ciranda das Mulheres Sábias”, de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista que fala sobre as mulheres ingênuas e as mulheres sábias. Estés é uma mulher que enaltece a beleza da mulher sábia e da mulher ingênua e a beleza da troca entre as duas.

A sabedoria ou a ingenuidade não se refere à idade cronológica, e sim a essa trajetória de busca do autoconhecimento, do crescimento, do olhar para as outras mulheres com companheirismo, solidariedade, amororisade e tantos outros sentimentos e comportamentos os quais podemos desenvolver para e por estar entre mulheres.  Senti o quanto iniciar a travessia dessa ponte que pode nos conduzir para o lindo caminho das mulheres companheiras e solidárias pode levar tempo.

Primeiro, é preciso reconhecer a arrogância, o sentimento de superioridade. É preciso dar um passo atrás e se reconhecer como pequena e saber curvar-se diante do saber das outras mulheres. Às vezes, a nossa ponte ainda está muito distante, pois está cheia de ansiedade, imaturidade, ingenuidade e de um olhar para o mundo externo como única forma de estar no mundo. Para atravessar essa ponte, é preciso derrubar os muros que foram construídos e que nos distanciam daquilo que somos. 

E olhar para as outras mulheres é se ver em um espelho e se reconhecer nesse mundo do feminino. Cada uma de nós a seu tempo vai perceber que a nossa alma é feminina e masculina. No entanto, nós mulheres precisamos fazer as pazes com a nossa feminilidade. 

* Maria Lúcia Oliveira é psicóloga clínica, facilitadora de circulo psicoterapêutico de mulheres, com especialização em terapia familiar e de casal. Também possui especialização em psicopatologia, formação em educação sistêmica e mestrado em ciências da religião.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA