Mulheres em Círculo

Continuidade e a construção de vínculos na relação pais e filhos

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Ser pais é uma construção diária, constante. Essa construção pode ser leve ou muito pesada. Quando nasce o primeiro filho ou filha, nasce uma mãe e nasce um pai. Você se lembra como foi para você? Existe uma geração de pais e mães com um forte desejo de não deixar nada faltar aos seus filhos e existe uma geração de filhos que está completamente desorientada, autoritária e desrespeitosa com os direitos do outro.

Pela minha experiência, estudos, pesquisas e observação, posso dizer que não acontece apenas na entrada da adolescência, o que era de se esperar. Vemos mães e pais desesperados com filhos de dois, três anos, sem saber o que fazer. Esses pequenos dominam o ambiente familiar e impõem a sua satisfação. É aquela criança que só come o quer ou quando quer, só faz ou não faz de acordo com a própria vontade. Como resultado disso, temos jovens e adultos com intolerância à frustração. 

São jovens que não conseguem ouvir um não, seja dos pais, dos namorados, namoradas ou da sociedade de um modo geral. E são tantas as consequências disso, inclusive o suicídio ou o homicídio. Vamos olhar para essa questão com mais responsabilidade e autoridade, pais e mães. Os pais estão com dificuldades de colocar limites, de definir regras, dificuldade de dizer não. A maternidade e a paternidade que não ocupam o seu lugar... Que dificuldade é essa de fazê-las fluir? 

Essa dificuldade mascara uma necessidade de que a relação com os filhos seja a mais perfeita, a melhor de todas. E o que está por trás disso é a grande crítica dos próprios pais a suas mães e seus pais. Essa geração de pais luta para ser diferente dos próprios pais e assume uma postura de arrogância muito grande. Assim, se perdem no processo de continuidade, de estabelecimento de vínculos amorosos, afetivos e de segurança básica. 

Parece que estamos todos fora do nosso lugar. As dificuldades que se tem com os filhos é por eles estarem fora do lugar. E esses pais, possivelmente, também estão fora do lugar em relação aos seus próprios pais. Ao aceitarmos os nossos pais do jeito que são, nos tornamos menores que eles e maiores que nossos filhos. Assim, podemos ocupar o nosso lugar na relação de pais.

* Maria Lúcia Oliveira é psicóloga clínica, facilitadora de circulo psicoterapêutico de mulheres, com especialização em terapia familiar e de casal. Também possui especialização em psicopatologia, formação em educação sistêmica e mestrado em ciências da religião.

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