Mulheres em Círculo

Mãe, não seja ‘pãe’

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Há algum tempo venho ouvindo um termo que me chama a atenção e causa um certo mal-estar. Ele é usado tanto pelos pais como por mães: “pães”. Você já ouviu alguém dizer que é “pãe” na vida dos filhos? O que significa ser “pãe”? Como fica isso para as crianças? Os homens parecem querer provar que conseguem sozinhos cuidar dos filhos e as mulheres parecem que desejam dizer aos homens que não precisam deles, numa verdadeira luta contra padrões sociais tradicionais.

O termo “pãe” parece definir aquela pessoa que assume o lugar de pai e de mãe ao mesmo tempo. Mas o fato é que essa tarefa é pesada demais quando um dos cônjuges se dispõe a assumir o próprio lugar e o do outro. Em uma rápida pesquisa na internet sobre esse assunto, é fácil perceber a distorção dos papeis e a exclusão dos parceiros no desenvolvimento dos filhos. As falas das mães mostram uma confusão de valores, cansaço e esgotamento.

É importante ter claro que um pai nunca suprirá a falta da mãe e uma mãe nunca suprirá a falta de um pai. É claro que existem situações diversas, as novas configurações familiares, os novos arranjos familiares. Mas não é possível acreditar que, por se ter a guarda de uma criança ou adolescente, isso lhe dê o direito de ser pai e mãe do mesmo. Entende-se que todos os componentes de uma família estão vinculados de uma forma profunda e indestrutível. Ainda que as crianças não tenham conhecido o pai ou a mãe, todos estão vinculados às pessoas que fazem parte do sistema.

Percebo o quanto fica pesado para esses pais assumirem um lugar que não é seu. Não importa se o parceiro ajuda, se moram juntos ou não. Apenas assuma o seu lugar de mãe ou de pai e não os dois. Quando eu ouço de uma mulher que é “pãe”, ouço junto uma voz de mágoa, de vitimização. Portanto, falo aqui agora para as mães que se sentem cansadas, com multitarefas: não tentem assumir mais uma tarefa, a tarefa de ser pai. Seja simplesmente mãe. Não aceite receber parabéns pelo Dia dos Pais. Esse lugar não é o seu.

* Maria Lúcia Oliveira é psicóloga clínica, facilitadora de circulo psicoterapêutico de mulheres, com especialização em terapia familiar e de casal. Também possui especialização em psicopatologia, formação em educação sistêmica e mestrado em ciências da religião.

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