Papo Musical

A curiosa história da marcha nupcial de Carlos Gomes

Reprodução / Wikipédia


Antônio Carlos Gomes foi (e ainda é) um dos mais ilustres filhos de Campinas, em São Paulo. Talentoso, ele chamou a atenção do Imperador Pedro II e, como bolsista do Imperador, seguiu para a Itália onde foi aluno do diretor do Conservatório de Música de Milão.

Carlos Gomes passou para história como grande operista: a ópera Il Guarany, escrita na língua italiana e baseada no romance homônimo do brasileiro José de Alencar, teve muito sucesso já na estreia, no famoso Teatro Scala de Milão. Assim, o operista tornou-se o primeiro compositor brasileiro a alcançar o sucesso na Europa, como destacou o musicólogo Bruno Kiefer, em 1977: “Numa época em que ainda se media a grandeza de uma nação pelos feitos de seus pensadores, cientistas, inventores, artistas e escritores, o êxito de Carlos Gomes era muito mais do que um sucesso individual: era a exaltação de um país recém-emancipado, preocupado em desenvolver as suas próprias potencialidades, em se afirmar perante as demais nações”.

Mas a obra de Carlos Gomes vai muito além da famosa ópera. Dentre muitas peças significativas, ele deixou uma bela marcha nupcial para piano a quatro mãos, que tem uma curiosa história. Composta no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1896, ano da morte do compositor, a marcha nupcial apresenta uma dedicatória assinada de próprio punho: “Expressamente escrypta para solemnisar o feliz consórcio de d. Maria Dolores de Albuquerque Mello por Carlos Gomes. Rio de Janeiro”.

Segundo o historiador Vicente Salles, a marcha nupcial foi escrita por encomenda do jornalista paraense Miguel Lúcio de Albuquerque Melo, amigo de Carlos Gomes, para o casamento da filha. Esse foi certamente um dos últimos trabalhos do compositor. A peça não consta nos catálogos conhecidos e foi editada por iniciativa do próprio Miguel Lúcio. Isso, inclusive, foi noticiado na imprensa na ocasião: “O Paiz diz que a brilhante peça musical foi ‘primorosamente executada no dia do casamento da distintíssima senhora a quem era oferecida e distribuída aos convidados em rica edição expressamente feita pela família da noiva’”

Além dessa inusitada edição, também existe uma partitura da marcha nupcial de Carlos Gomes editada pela Buschmann & Guimarães e um dos exemplares encontra-se nos arquivos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Ouviremos a marcha nupcial de Carlos Gomes para piano a quatro mãos, interpreta pelas pianistas paraenses Leonora Brito e Eliana Cutrim.

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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