Papo Musical

A presença das mulheres nos saraus da República

Reprodução / Wikipédia

Habituais no palácio real ao longo do Brasil Império, os saraus consolidaram-se também como prática doméstica, tomando conta das casas das famílias da elite carioca do início da República. A palavra sarau deriva do latim seranus / serum, termos que fazem referência ao entardecer ou ao pôr do sol. Justamente por ter essa etimologia, convencionou-se realizar os saraus durante o fim da tarde ou noite. Nessas reuniões festivas aconteciam apresentações musicais com demonstrações de interpretações artísticas e literárias.

Esse tipo de evento era muito comum, principalmente entre grupos de aristocratas e burgueses, dos quais mulheres também se faziam presentes. Nesses saraus, as sinhazinhas, como eram chamadas as moças de “boa família”, participavam demonstrando dotes artísticos. O cotidiano das mulheres do Brasil daquele período diferenciava-se de acordo com a condição social, econômica e com a cor da pele.

Para as moças oriundas de famílias endinheiradas, era comum o ensino da leitura, escrita e das noções básicas de matemática, que vinha acompanhado das aulas de piano e francês. As mulheres deveriam ser mais “educadas” do que “instruídas”, ensinadas desde a infância a serem doces, amáveis e submissas. As músicas que elas interpretavam nesses saraus eram oriundas de partituras encontradas nas recém-surgidas editoras de música, responsáveis por ensinar, vender, alugar e imprimir partituras europeias e nacionais. 

Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro encontra-se digitalizado o maior acervo de partituras representativas da vida musical brasileira. Lá estão algumas coletâneas muito utilizadas como entretenimento de forma amadora, pertencentes a esse universo feminino, particular das sinhazinhas. 

Ouviremos uma peça típica dos saraus do início do século, que se tornou essencial no repertório pianístico brasileiro das sinhazinhas do início da República: o tango de salão “O despertar da montanha”. A obra foi composta em 1919 por Eduardo Souto e interpretado pela pianista carioca Carolina Cardoso de Menezes.

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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