Papo Musical

De Chiquinha Gonzaga a Marielle Franco

Ilustração feita por Ralfe Braga para o site ChiquinhaGonzaga.com


O Rio de Janeiro de 1888 viu muitos negros, após a assinatura da Lei Áurea, estabelecerem-se em lugares que logo se tornariam grandes centros do samba, como a Cidade Nova e a Praça Onze. O gênero se popularizou e esses locais passaram a atrair cada vez mais compositores, músicos e passistas que, reunindo-se regularmente, formaram clubes e associações que competiam entre si, dando origem às escolas de samba. 

Foi na década de 1960 que essas escolas ganharam força nas ruas, quanto entraram em cena o samba-enredo, também chamado de samba de enredo. Trata-se de um subgênero do samba moderno, surgido no Rio de Janeiro nos anos de 1950, especialmente para o desfile de uma escola de samba. Anualmente, essas academias promovem concursos internos, onde várias músicas são apresentadas ao público em quadras e, ao final, normalmente entre os meses de setembro e outubro, uma dessas músicas é escolhida como samba-enredo oficial para o Carnaval do próximo ano.  

O samba campeão embala a escola durante a fase de preparação e ensaios técnicos até ser apresentado no desfile de Carnaval. Interessante notar que para que um samba seja considerado samba-enredo, ele deve retratar o enredo escolhido pela direção da escola. Mulheres como Chiquinha Gonzaga e Marielle Franco inspiraram compositores a contar a história de “mulheres de luta” através de samba-enredo nos Carnavais cariocas. 

Em 1985 e em 1997, a compositora Chiquinha Gonzaga (autora de “Abre Alas”, primeira marchinha de Carnaval brasileiro, primeira pianista musicista de choro e também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil) foi enredo das escolas Mangueira e Imperatriz Leopoldinense, respectivamente.  

Agora, já em 2019, a Estação Primeira de Mangueira consagrou-se campeã do Carnaval do Rio de Janeiro com o enredo “História para ninar gente grande”, criado por Leandro Vieira. A música exaltou líderes que influenciaram a história do Brasil. O carnavalesco procurou retratar os marginalizados pela história oficial, defendendo os pobres, negros e indígenas. Um dos momentos mais marcantes do desfile foi a inclusão de uma homenagem à vereadora e ativista Marielle Franco, assassinada em março de 2018 e cujo o crime permanece sem solução.

Ouviremos o samba campeão de 2019, de autoria de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, com solo da jovem de 11 anos de idade, Cacá Nascimento. “Estou muito feliz em representar essas mulheres. Mulheres que sofreram ou sofrem até hoje. Guerreiras que lutam por alguma causa”, disse a pequena sobre sua atuação.

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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Fernando Gabeira, Estado de S. Paulo, 23-3-2018
Fernando Gabeira, Estado de S. Paulo, 23-3-2018
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