Papo Musical

Histórias encobertas pelo silenciar do gênero

Reprodução / Wikipédia


Na semana do Dia internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, relembramos o quanto a mulher foi perseguida e silenciada no universo da música clássica.  Antigamente, todas as moças "de boa família" deviam aprender a tocar um instrumento. Era um “atrativo a mais" na hora de fazer um bom casamento. Mas se uma dessas boas moças decidisse se tornar uma musicista profissional, a família não via atrativo algum. Por muito tempo, essas mulheres foram sistematicamente excluídas de atividades profissionais ligadas à música.  

Os compositores Amadeus Mozart e Felix Mendelssohn, por exemplo, tiveram irmãs extremamente talentosas. Elas foram afastadas de apresentações públicas e desencorajadas de serem musicistas profissionais simplesmente por terem nascido mulheres. A austríaca Maria Anna Walburga Ignatia Mozart, apelidada de Nannerl, é lembrada na história como a “irmã de Mozart”. 

Ela foi exibida como criança prodígio junto com Mozart. Tocou diante da realeza por toda a Europa. No entanto, ao atingir a puberdade foi empurrada pelo pai para os papéis de filha submissa, esposa do homem que o pai escolheu e mãe. Depois de ser deixada para trás, enquanto o pai Leopold Mozart e o irmão continuavam a turnê, Nannerl escreveu uma canção e os mandou. Não existem registros da música, mas a reação de Mozart foi encontrada em uma carta endereçada à irmã.  “Eu não consigo acreditar que você componha tão bem. É lindo”, escreveu. 

Há também registros de músicas de Amadeus Mozart escritas com a letra de Nannerl. Isso levanta a questão, inclusive, de que algumas das músicas compostas por ele podem ser, na verdade, composições da irmã. Mera suposição. A história apagou qualquer vestígio de obras de Nannerl por ser ela uma mulher.
 
Outro triste exemplo desse preconceito é da judia alemã Fanny Mendelssohn. Irmã do compositor Felix Mendelssohn, Fany foi em alguns aspectos mais talentosa do que o famoso consanguíneo. Ela compôs por volta de 466 obras. No entanto, teve as ambições tolhidas pela família, inclusive pelo próprio irmão. Um trecho da carta de Felix Mendelssohn a mãe, também pianista, falando a respeito da irmã e comprava este preconceito.  “Pelo que eu sei de Fanny, diria que ela não tem inclinação e nem talento para a composição. Para uma mulher, ela já sabe a respeito de música o suficiente. Ela administra a casa e a família e não se preocupa com o meio musical. Com certeza, ela não coloca essas preocupações à frente das preocupações domésticas. Publicar suas obras só perturbaria essas preocupações e eu não posso dizer que aprovaria isso”, escreveu. 
 
Muitas crenças eram cultivadas, apostando que as mulheres não cuidariam mais de casa, nem mesmo teriam filhos, se fossem profissionais. Manter uma “filha mulher” sem um casamento significava complicações sociais na época de Nannerl e Fanny. As falhas nas biografias das duas deixam claro que o ponto de vista histórico sobre as mulheres foi renegado e negligenciado. Estamos perdendo parte da história da humanidade simplesmente por se esquecer de considerar a participação das mulheres nela. Ainda é tempo de rever isso.
 
Ouviremos de Fanny Mendelssohn o “Noturno em Sol Menor”, interpretado pela pianista e compositora canadense Heather Schmidt.

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA