Papo Musical

Muito além da primeira pianista negra a ingressar na Julliard

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Pianista, cantora, compositora e ativista dos direitos civis dos negros norte-americanos, a estadunidense Nina Simone, conhecida como “musa do jazz” viveu todos os conflitos do seu tempo. Sobre o título de musa, ela dizia: “É o título que todo branco concede piedosamente aos cantores negros”.

Nas décadas de 1970 e 1980, Nina Simone acompanhou a ascensão e a queda dos direitos civis, a derrota do black power, a opressão sobre as mulheres negras e a persistência do racismo. “Eu podia cantar para ajudar meu povo e isso se tornou o principal esteio da minha vida. Nem o piano clássico, nem a música clássica, nem mesmo a música popular, mas a música dos direitos civis”, disse. 
 
Nina Simone (Eunice Kathleen Wayman) nasceu em Tryon, Carolina do Norte, nos Estados Unidos, em 21 de fevereiro em 1933. Ela morreu em Carry-le-Rouet, Provence-Alpes-Côte d’Azur, na França, em 21 de abril de 2003, aos 70 anos, enquanto dormia. Seu talento surgiu logo aos três anos de idade, quando passou a tocar piano de ouvido e foi encorajada pela mãe, empregada doméstica e pastora metodista, a estudar piano seriamente.

Aos 12 anos sentiu na cor da pele o preconceito que a aguardava: ao dar seu primeiro concerto, seus pais foram impedidos de ocupar os primeiros acentos, destinados exclusivamente a brancos. “Eu estudei piano clássico por 22 longos anos e teria seguido carreira se tivesse dinheiro para isso. Acontece que eu era pobre e fui rejeitada pelo Curtis Institute of Music da Filadélfia [por ela ser negra]. Então, eu não tive outra alternativa além de cantar em clubes noturnos para sustentar a família [ela tinha sete irmãos]”, afirmou à Folha de São Paulo em setembro de 1988.  

Nina Simone estudou na afamada Julliard School of Music, se tornando a primeira negra a ingressar na renomada escola de Nova York. A pianista foi além e se tornou, como escreveu o repórter da Folha, Thales de Menezes, no ano de 2017, “uma grande cantora de jazz e também de soul, rhythm’n’blues, pop, folk, gospel. Além de exímia pianista, tornou-se uma compositora inspirada e engajada na luta pelos direitos civis”.

A carreira e a vida de Nina foram conturbadas e polêmicas. A musicista parecia ter uma busca insana pela perfeição e pelas causas relacionadas aos direitos humanos. “Gastei muitos anos perseguindo a excelência, porque é nisso que se pauta a música clássica... Agora eu me dedico à liberdade, o que é muito mais importante”, declarou. 

Ouviremos Nina Simone no Festival de Montreux, em 1976, interpretando a canção “How it feels to be free”

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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