Papo Musical

O Brasil e o Le Groupe des six

Reprodução / Wikipédia

Na primeira metade do século 20, um grupo formado por seis compositores franceses (Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud, Francis Poulenc e Germain Tailleferre) foi batizado como Le Groupe des Six (Grupo dos seis) pelo crítico francês Henri Collet.  Eles se inspiravam no compositor Erik Satie e no dramaturgo, cineasta e ator Jean Cocteau. 

Satie foi o grande precursor da música das vanguardas artísticas francesas, conhecido como professor, divulgador e mentor. “Não existiu uma escola Satie ou o satiismo porque não deveria haver escravidão na arte”, disse Cocteau sobre Erik Satie. Cocteau foi quem atraiu artistas de outras áreas para criação de obras conjuntas. Os músicos do Grupo dos Seis compuseram várias peças musicais conjuntas. Eles tinham como meta a brevidade e a clareza, assim como oposição ao romantismo alemão e o impressionismo. 

Receptivos ao jazz, eles utilizaram com frequência ritmos complexos, politonalidade e também a harmonia tonal. Um dos integrantes do Grupo dos Seis, Darius Milhaud, viveu no Brasil entre os anos de 1917 e 1919. Milhaud, na época com 25 anos, foi adido da Embaixada da França no Rio de Janeiro no período em que o poeta Paul Claudel era o embaixador.
 
Segundo a publicação de Manoel Corrêa do Lago, O Círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil: Modernismo musical no Brasil antes da Semana, “Milhaud, em suas memórias, contou o impacto que sobre ele exerceu o Rio de Janeiro. Foi através dos Veloso-Guerra, por exemplo, que ele veio a conhecer realmente obras de Satie, com quem tivera, até então, um contato bem superficial”.
 
Na capital carioca, Milhaud foi acolhido pelos compositores Alberto Nepomuceno e Henrique Oswald. Conheceu a música de Glauco Velasquez, descobriu os Veloso-Guerra, o professor Godofredo Leão Veloso, do Instituto Nacional de Música e sua filha, a pianista e compositora Nininha Veloso Guerra, casada com o compositor Oswaldo Guerra. Milhaud espantou-se com o grau de atualização do grupo em relação à música moderna. A estada no Brasil o influenciou muito. As obras Saudades do Brasil e Scaramouche refletem com clareza essas inspirações.
 
Baseado no personagem da Comedia dell’arte, Scaramouche era um servo inescrupuloso, pouco confiável e intrigueiro. A obra Scaramouche opus 165 foi escrita por volta de 1937 a partir de esboço composto 1917. A suíte em três movimentos foi originalmente composta para saxofone e orquestra com versões para saxofone e piano, clarineta, piano quatro mãos e para dois pianos. Seguindo uma estrutura com princípio clássico, Scaramouche vai adquirindo um caráter popular, especialmente no terceiro movimento intitulado Brazileira. A politonalidade, característica das obras compostas pelo Grupo dos Seis, atravessa os três movimentos de Scaramouche.

Ouviremos de Darius Milhaud, o terceiro movimento de Scaramouche, Brazileira, versão para dois pianos interpretado pelos pianistas Martha Argerich e Nelson Freire. 

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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