Só Mulheres

Gente sensata não lê sobre paixão

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Sabe aquela pessoa ajuizada que você conhece e admira? Ela não leria este texto. Gente ponderada não lê nada ordinário e cheio de frases feitas. Exprimir sobre paixão e rompimento sem ser piegas é um desafio, uma provocação. Até porque amamos piegas, mas precisamos secar nossos olhos, amadurecer nosso espírito e conseguir falar sobre isso de forma mais leve. Já sofremos demais. No entanto, leveza não é bem palavra que rima com paixão. A não ser que estejamos falando daquela sensação de voar no meio do furacão. Apaixonados são furacões.

Para nosso alívio, gente sensata também fica de olhos vermelhos. E é para eles que iremos descrever o que acontece no dia a dia naquele período, entre 12 e 18 meses, preconizado pela ciência como o período da paixão. Faremos isso em fragmentos, flashes, exatamente como a paixão faz conosco na vida real. Redigiremos um texto cheio de interrupções, insensatez, desforme, sem sentido e, esperamos, prazeroso.  Como nossa vida.

Tomando banho, maior ativação de estruturas das vias mesolímbicas dopaminérgicas, preparando sanduíche, estado de embriaguez constante, digitando no celular, lembrança na velocidade de um piscar de olho. Falando com o chefe, vício imediato daquela voz, ouvindo música, um quinto de segundo e o pensamento nele, lendo despretensiosamente um livro, liberação de dopamina, ocitocina, adrenalina e vasopressina.

Olhando no espelho, estado hipermotivacional, escovando os dentes, demência temporária, estacionando o carro, características de obsessão, visitando o avô, características de compulsão. Vendo TV, motivação extrema, chope com amigos, prazer imensurável ao lembrar a cor dos olhos, escolhendo a roupa, queda da serotonina, comprando pão, transtornos e ideias invasivas. A pessoa na sua mente de maneira invasiva. Mente. Pessoa.  Invasiva.  Pessoa invasiva. 

Trabalhando, “todo tempo do mundo é insuficiente quando estamos juntos”, dormindo, recorrentemente se sentindo sem controle. Na manicure, inibição de estruturas pré-frontais, “preciso ligar”, “quero ligar”, “vou ligar”. Escolhendo o prato no restaurante, queda do freio de impulsos e desejos, no supermercado, falha na antecipação de consequências do que você está realizando agora. Levando o lixo pra fora, estado de inquietude constante, indo para a faculdade, escolhas desmedidas, falando ao telefone com a mãe. Ações esteticamente duvidosas, desligando o despertador, ações eticamente duvidosas, respondendo e-mail, perda da capacidade de bom juízo, mascando chicletes, tomadas de decisões prejudicadas. 

Cortando o cabelo, cérebro completamente alterado. “Bom dia”, coração dispara, não responde ou visualiza, ódio mortal. Dois segundos depois, amor eterno. Na academia, uma das melhores sensações da vida, fazendo prova, “se ele estivesse aqui”, ligando o ar condicionado, sentimentos à flor da pele, colocando água na forma de gelo, “vai dar tudo certo”. Vendo as horas, estamos completos e planejamos a vida a dois para os próximos dois séculos.

Esperando o semáforo abrir, sensação de poder voar dentro ou fora do furacão, planejando a semana, vício no estado eufórico, problemas com o funcionário, sensações de entusiasmo. No trânsito, calor das emoções, nadando, arrependimento, no café, risos sem motivo, jogando baralho, conviver com o mistério, no cartório, ouvir repetidamente a gravação da voz, fotos, vídeos, músicas, sons, barulhos, ruídos, coração que arfa. 

O que esperar na próxima curva? Uma estrada com gosto, personalidade e pontos de vistas onde tudo encanta. Da preferência musical à cor dos olhos, passando pelo jeito de andar. Gostar do diferente, se encantar pelo inatingível. O irritante sentimento de alegria que a paixão proporciona e, principalmente, o efeito contrário que ela produz. Ver beleza onde não há, qualidades em quem nunca as possuiu e acreditar em promessas nunca cumpridas. Ou pior: nunca proferidas.

Sentimento cafajeste esse! Tatuagens, juras, emoção não correspondido, ansiedade, expectativas. Dose cavalar de orgulho, traição entre cérebro e coração, ciclo de depressão e baixa autoestima. Febre, tortura psicológica e, a não ser que alguém venha aqui dar dois tapas na nossa cara, vamos continuar. Por quê?

Porque sabemos disso tudo. Vivemos isso tudo. Todos nós, os piegas e os sensatos. A diferença é que os regrados não leem sobre a avalanche. Sequer assumem sentir o vento frio do norte. Usam grossos cobertores de mecanismos de defesas. Quentinhos, porém sem eficácia. Quando menos se espera, estão no olho do furacão, simplesmente porque é irritantemente, quimicamente bom demais.

Com ou sem nossa anuência. No passado, agora ou no futuro, a poesia, o lirismo do sentimento, independem da gente. E a ciência não revolve. Agora é decidirmos se vamos secar nossos olhos ou deixá-los molhados mais um pouquinho (risos) e pensarmos sobre o amadurecimento psicológico que é viver e transpor a paixão. Para isso, percorremos esse longo, piegas, intenso, insensato e prazeroso percurso, cometendo loucuras sem praticar tolices. Ser louca, sem ser tola.

*Larissa Vaz é psicoterapeuta, psicodramatista, especialista em Reabilitação Cognitiva. Email: larissapsi@gmail.com. Telefone: (62) 3281-3061.

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