Só Mulheres

Seja você e vire tendência

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Você está sentada em um colchonete azul, que considera fino demais para sustentar até sua massa corporal, que dirá o peso de seus pensamentos culposos. Tem muitos de “eu não deveria”, “se tivesse feito daquele jeito” ou “se conseguisse ser assim”. Cobranças internas. Sente uma gota redonda de suor rolando da sua testa, que provavelmente chegaria ao seu queixo se você involuntariamente não a tivesse interrompido. Sua mão obstrui a gota, mas não consegue paralisar o percurso diário das cobranças externas: “falo para seu bem”, “você precisa mudar”, “tem um potencial enorme, só precisa...”. 

Mal acomodada pensa: “Preciso me concentrar. Quero transcender”. Mas a sala tem uma parede azul turquesa com flores pintadas de vermelho com um grande ventilador bem no meio. Pronto, já se desconcentrou. Está ali para aprender a transcender, a entrar em contato com você, atingir um ponto nunca galgado. E essa ideia de mergulhar para dentro de si parecia tão boa... Talvez fosse a solução para seus problemas.

Mas algo errado transcorre e você suspeita que o papel A4 no qual está escrito “comdefeito”, sem espaçamento, e colado com fita crepe bem ao lado do ventilador, possa ser o motivo dessa sensação estranha. “Não deveria ter lido aquilo”, pensa. Leu. Agora como que por condicionamento pavloviano, suas pernas começam a suar nos pontos de encontro entre elas. Lamenta ter sido alfabetizada. 

Coloca as pernas molhadas na posição de lótus, que obviamente sabe qual é, pois pesquisou no Google tudo sobre aquele lugar. “Concentrar”, pondera levando o polegar e o indicador sobre o nariz, encontrando o canto dos olhos, bem onde antes estavam repousados seus óculos. “Conncenntraarr, p...!!" 

Tudo que consegue meditar é: “Como eles têm tempo de imprimir comdefeito tudo junto e não têm tempo de arrumar o ventilador? Onde está a espuma desse bendito colchonete. Cadê o recheio dele? Me cobro demais e, por isso, não vou transcender. Sou controladora ao extremo ou esse ambiente é estranhamente desorganizado? Até o caos precisa de uma ligeira ordem! Esse colchonete... Cadê o recheio dele? Cadê o recheio da minha vida?”.

Não foi sobre recheios que Freud dedicou os estudos, mas pontuou algo intrigante sobre nós não sermos apenas aquilo que pensamos ser. Disse que somos mais: somos o que lembramos e também aquilo de que nos esquecemos. “Somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos”, disse Freud. 
 
Assim, e por isso, mesmo sem notar, você transcendeu. Quando investiu na sua dificuldade. Quando percebeu o ambiente tão diferente de você. Quando permitiu levantar-se e, elegantemente, enrolar o magro azul colchonete. Depois, entregá-lo à secretária com aquele corte de cabelo de um lado curto, de outro comprido. Ela, te olhando, faz um sonoro, porém não identificado, barulho com a boca. Isso é o suficiente para deixar claro que não gostou de você ter terminado a “meditação” antes do horário combinado. Você sorri e agradece.

Você transcendeu muito. Observou seu lado sombrio. “Talvez devesse ter ficado até o final, mas não estava a fim, não sem recheio. Será que vai ser mais uma coisa que começo e não termino? Pode ser... não sei... Não importa! Eu posso errar”, pensa. 

Errar. O libertador errar. Passar pelas cobranças. O que o outro pensa de você é na realidade critério e valor dele. Não tem bulhufas seu lá. Trata-se de apenas uma opinião, nada mais. Amargura e ressentimento desaparecerão se você se colocar no lugar de quem te critica, ainda que ele não se coloque no seu. Receba a crítica com graça e aproveite para não se levar tão a sério. Ninguém é tão bom quanto pensa ser e nem tão ruim. Veja seu passado, seus erros e cobranças como uma série de aventuras. 

Se quiser investir em recheios, invista. Aceite suas “fraquezas” como características importantes suas. Expresse sua raiva de maneiras criativas. A gente convive relativamente bem com a gente mesmo porque ousamos ser honestos conosco. Com os demais, isso não é tão simples assim. Portanto, cerque-se de quem te quer bem. Ainda assim adversidades surgirão. O fundador da psicologia analítica, Carl Jung, oferece excelente desenlace: “Conhecer sua própria escuridão é o melhor método para lidar com a escuridão do outro”.

*Larissa Vaz é psicoterapeuta, psicodramatista, especialista em Reabilitação Cognitiva. Email: larissapsi@gmail.com. Telefone: (62) 3281-3061.

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