Viva a diferença!

Autismo, escola e família

Shutterstock


Em regra, é difícil para a família de uma criança saber que ela é autista. No entanto, respeitados os momentos de angústia e reflexão, é extremamente importante que a intervenção seja o mais rápido possível. No livro “Autismo, Educação e Transdisciplinaridade”, Carlo Schmidt diz que “o autismo, no entanto, é ‘democrático’. Não se sujeita a condição socioecônomica, cultural ou racial e pode ocorrer em todos os tipos de família. O que mais tende a variar, além dos graus de comprometimento do autismo, é a forma como as famílias lidarão com esse diagnóstico”.

A maneira como a família lida com o autismo de um componente é um divisor de águas no processo de aprendizagem daquele jovem que possui uma dificuldade em compreender o que lhe é ensinado. Destaque-se aqui que existe uma dificuldade em compreender e não em aprender, pois a partir do momento em que esse indivíduo é orientado da maneira adequada às próprias peculiaridades, ele aprende e, a depender do hiper foco, pode vir a destacar-se naquilo que faz.

A fase escolar tende a ser a experiência mais simbólica dada a relevância no processo de inclusão social do autista. É nela em que tudo acontece de forma nova e inesperada. Sabemos que a inclusão escolar brasileira está longe de ser adequada ou aproximar-se do satisfatório. É preciso parceria, incentivo, normas, campanhas... de modo que a situação tenda a evoluir positivamente.

A instituição de ensino deve, com base na realidade e nas características individuais de cada aluno, buscar estratégias para que o processo de ensino-aprendizagem aconteça com qualidade e respeito às limitações. Quando se fala em uma criança ou adolescente autista, a união de forças é sempre salutar no processo inclusivo. Se a família e a escola realizam uma parceria que visa o desenvolvimento do aluno, os resultados tendem a ser muito melhores do que se não houvesse um esforço mútuo.

O professor é essencial para o sucesso das ações inclusivas, não somente pela grandeza do ofício, mas também em razão da função social do próprio papel. É ele a pessoa mais indicada a assumir a presidência de um comitê formado por docentes, gestores e familiares da criança ou adolescente autista. De acordo com Eugênio Cunha, na obra “Autismo na Escola”, existem preceitos de aprendizagem que podem ser passados ao aluno com autismo e aos demais:

- A descoberta de que as pessoas ao redor são importantes;
- A valorização da amizade;
- Afetividade e amor;
- Que o convívio com todos da escola ajuda-os na construção do conhecimento;
- Que aprender as rotinas diárias poderá contribuir para a independência e a autonomia;
- Que compartilhar sentimentos e interesses é uma forma de comunicação e que faz parte dos processos inclusivos.

Todos esses pontos podem ser alcançados com mais facilidade e/ou rapidez quando os familiares do aluno se engajam no movimento inclusivo, pois eles, por conhecerem a rotina dos filhos e por eles ter amor, possuem condições de auxiliar o ensino, orientado pelos docentes e terapeutas, de forma mais impactante sob a perspectiva positiva. As partes envolvidas no processo de aprendizagem do aluno não podem permitir que sejam criadas barreiras que dificultem o acesso da família à escola e dessa àquela. Como bem dizem Vanessa N. F. dos Santos e Rafaella Asfora S. C. Lima, no trabalho científico “A concepção dos pais sobre inclusão educacional de crianças com transtorno do espectro do autismo (TEA) ”, “a família do indivíduo com TEA possui um papel decisivo para o seu desenvolvimento, desde a fase do diagnóstico, nas formas de tratamento e de intervenções de caráter clínico e pedagógico”.

Não é simples despertar nos pais que eles devem fazer parte do processo de aprendizagem do filho, bem como não é fácil encontrar escolas que estejam totalmente abertas à inclusão. Enfim, para dar certo, a conscientização da família em relação à parceria com a escola é um fator fundamental no processo de aprendizagem do aluno autista. Do outro lado, a escola tem de se encontrar aberta, ciente do papel educacional e socializador, em observância aos preceitos jurídicos que ensejaram a concessão de funcionamento para que pudesse exercer a função pública de instituição de ensino.

*Tatiana Takeda é advogada, membro da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/GO, em que coordena a Subcomissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Autista, Vice-Presidente da Comissão de Inclusão Social e Defesa da Pessoa com Deficiência do IBDFAM/GO, professora do curso de Direito da PUC Goiás, servidora pública, mestre e especialista em Direito, pós-graduada em Ensino Estruturado para Autistas e autora da coleção de Ebooks “Viva a Diferença – O que você precisa saber sobre Autismo”, disponível para download gratuito no site www.ludovica.com.br.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
POR DATA