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É possível viver sem dor e desconforto?

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Você acha que é possível viver sem sentir dor ou sofrimento? Você acredita que só é feliz quem não enfrenta adversidades e dificuldades na vida? Bem, se você vive no mundo real, você sabe que uma dificuldade aqui, outra ali faz parte da vida de quem se relaciona com familiares e amigos, trabalha, cuida de casa, de filhos, de cachorro... 

Enfrentar situações que causam dor, sofrimento e desconforto faz parte da vida de todos nós. O que muda é a forma como nos relacionamos com essas situações. Por isso, para alguns a vida parece mais fácil do que para outros. Geralmente, essas pessoas têm mais resiliência e desenvolveram habilidades para lidar com as adversidades, sem ficarem fixadas só na reclamação e na lamentação. Mas é fato que todos nós, um dia, estaremos tristes, chateados, preocupados, irritados, desanimados... E está tudo certo com isso!
  
A sociedade atual, alimentada pelo sucesso das redes sociais, tem imposto um modelo de vida onde devemos estar bem o tempo todo. Para qualquer indício de dor física ou psíquica, existe um medicamento. Remédio para dor de cabeça, para dor no peito, para ansiedade, para tristeza etc. Estamos nos empenhando em curar os sintomas e nos esquecendo de ouvir as mensagens que esses sintomas nos trazem. Não estou aqui fazendo uma apologia ao sofrimento e condenando o uso de medicamentos. Estou questionando o excesso de medicalização e o movimento de fuga da dor e do sofrimento. 

Sentir tristeza, angústia, ansiedade ou qualquer outro incômodo emocional não nos impede de viver e de buscar um entendimento para esse desconforto. É claro que um desconforto muito alto tem que receber atenção médica e cuidados psicoterápicos. O meu alerta é para o quanto hoje é comum encontrar um amigo ou conhecido que faz uso de ansiolítico, antidepressivo ou remédio para dormir. Remédio para dor de cabeça? São várias as pessoas que andam com ele na bolsa. Não podemos considerar isso natural. Natural é encontrarmos recursos próprios para lidarmos com nossas dores emocionais. Natural é cultivarmos o nosso bem-estar sem utilizar medicamentos como muleta.

É claro que alguns transtornos psíquicos requerem o uso de medicamento, mas o movimento não pode parar por aí. Não podemos adotar o medicamento como o único responsável pelo resgate do nosso bem-estar. Ele pode ser um bom coadjuvante nos momentos de crise para nos estabilizar e, assim, encontrarmos forças para buscarmos a compreensão desses sintomas e aprofundarmos o nosso autoconhecimento. A nossa cultura estimula a busca de caminhos alternativos para fugir da dor, para evitar um contato mais profundo com nosso mundo interior e com nossas experiências internas. Também estimula esconder o que estamos sentindo e, assim, nos privamos de pedir e receber o apoio das pessoas que nos amam.  E com isso, nos anestesiamos para a vida. 

Vivemos com nossa capacidade mínima de sentir e limitamos nosso potencial de viver de forma mais plena e integrada. A dor, os incômodos, os sentimentos desconfortáveis fazem parte da jornada da vida. Se nos privamos de sentir os desconfortos internos, limitamos nossa capacidade de sentir a vida como um todo, inclusive as experiências agradáveis. Vivemos de forma limitada as boas experiências internas e externas, sem usufruir de todo o potencial de realização e bem-estar que elas nos trazem. 

Isso porque vou amortecendo minha habilidade de sentir a cada vez que fujo de algo que não desejo. E essa capacidade de sentir a vida não está vinculada somente às experiências boas. Ela está vinculada à vida como um todo. Para sentir a vida, nós precisamos fazer contato com nosso mundo interno e externo, preferencialmente de peito aberto, sem restrições. Então, fica o convite para você observar se não tem fugido dos seus sentimentos ou se está sofrendo sozinha, sem pedir apoio para amigos e familiares.  Fica o convite para você viver a sua vida mais plenamente, com mais inteireza e liberdade. 

*Yara Carvalho é pedagoga, psicopedagoga e especialista emocional. Tem pós-graduação em Psicologia Analítica e Psicologia Transpessoal e várias formações na área de desenvolvimento humano, inteligência emocional, relacionamentos interpessoais e Psicologia Positiva. É facilitadora de programas de autoconhecimento e desenvolvimento da inteligência emocional e de workshops para pais que desejam investir em seus relacionamentos familiares e na educação emocional dos filhos. 
 
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