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Passos para uma vida mais feliz - #8

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Quem assistiu ao filme “O Náufrago” deve se lembrar do momento marcante em que o ator Tom Hanks, interpretando Chuck Noland, único sobrevivente de um acidente aéreo, transforma uma bola em um amigo imaginário chamado Wilson. Por que o personagem de Tom Hanks tem essa atitude? Porque para lidar com os desafios emocionais e espirituais de viver isolado em uma ilha deserta, ele precisava de uma companhia, um amigo para compartilhar suas ideias, seus planos, seus medos, suas emoções. 

O personagem não perdeu a sanidade mental porque estabeleceu uma relação com a bola, continuou se comunicando, expressando emoções e trocando afeto, mesmo que fosse com um amigo imaginário. Somos seres sociais. Nós não nascemos para viver sozinhos. Está certo que algumas pessoas são mais extrovertidas e outras menos, mas todos nós precisamos de nos relacionar com o outro. E se as relações sociais são tão importantes, é claro que os relacionamentos fazem parte dos aspectos considerados essenciais para uma vida mais feliz. Mas pode ser qualquer tipo de relacionamento? Claro que não! 

Os relacionamentos apontados pelos pesquisadores da psicologia positiva como essenciais para o nosso bem-estar são as relações positivas. E é exatamente delas que vamos tratar no passo 8. Esses estudos científicos têm comprovado que interações sociais saudáveis fortalecem o sistema imunológico, reduzem os riscos de depressão e transtorno de ansiedade, favorecem o processo de cura das doenças e estão diretamente relacionadas com a felicidade e a satisfação com a vida.

A necessidade de nos relacionarmos com as pessoas começa quando nascemos e permanece durante toda a nossa vida. A necessidade de contato, de nos sentirmos íntimos de alguém, de amar e ser amado, de sabermos que existem pessoas que nos apoiam, que reconhecem nossa existência no mundo, que ficam felizes com nossa felicidade e com nossas conquistas e que admiram nossas qualidades, é uma necessidade que precisa ser atendida para conquistarmos essa tal felicidade. 

É através das relações interpessoais que compartilhamos nossos desejos, nossos medos, nossos desafios e conquistas. A conexão com outras pessoas possibilita a troca de afetos e a expressão de nossas emoções e sentimentos. A nossa felicidade é diretamente influenciada pelas relações com nossos familiares, amigos, colegas de trabalho, comunidade religiosa, acadêmica... São com essas pessoas que compartilhamos nossas conquistas e que celebramos nossa vida. São essas pessoas que validam nossas forças de caráter (passo 5), que nos entregam amor e carinho, que ficam felizes com a nossa felicidade. E são essas pessoas os maiores alvos do passo 2, passo 4 e passo 7.
  
Você já observou como a sua felicidade é influenciada pela felicidade das pessoas que você mais ama e como você influencia a delas? Se você ama alguém e essa pessoa está sofrendo muito, seu nível de bem-estar tende a diminuir, mesmo que sua vida pessoal esteja muito boa. Você deve ter alguma lembrança de um momento difícil na sua vida em que a presença de pessoas que te queriam bem foi essencial para que você superasse a sua dor ou dificuldade e, assim, se sentisse melhor e mais feliz. E aqueles momentos em que relacionamentos complicados e destrutivos tiraram a sua paz e prejudicaram o seu bem-estar? Os exemplos não param, não é mesmo? Poderíamos ficar horas aqui dando exemplos de como os relacionamentos impactam a nossa vida. 

Então, por que não cuidamos mais deles? Por que vamos “levando” as nossas relações sem o cuidado e a atenção que elas merecem? É essencial nos tornarmos responsáveis pelos nossos relacionamentos! Somente assumindo a responsabilidade por nossas interações sociais, seremos capazes de fazer a parte que nos cabe naquelas relações que valem a pena e de desapegar daquelas relações destrutivas que só nos fazem mal. Mas como vou saber se um relacionamento é positivo ou destrutivo? 

Relacionamentos positivos produzem em nós a sensação de saber que amamos e que somos amadas. São relações que nos dão a segurança de que temos alguém com quem contar e que despertam em nós o desejo de apoiar e ajudar. São relações que refletem os valores (passo 1) que elegemos como essenciais em nossa vida. São relações que estão continuamente despertando o que há de melhor em nós e também o sentimento de gratidão (passo 4). E como podemos nutrir essas relações positivas?

Vejamos como você pode favorecer os seus relacionamentos... Esteja mais presente. Fortaleça sua atenção plena (passo 3) e, quando estiver na presença de alguém, esteja inteiro. Escute verdadeiramente o outro, silencie seus pensamentos para ouvir da forma mais límpida possível o que o outro está lhe dizendo. Diminua seus julgamentos em relação ao outro, pare de criticar e culpar o outro e veja o que há por trás daquele comportamento que te irrita e do qual você não gosta. Evite rotular o outro a partir de uma atitude, não generalize uma atitude como se a pessoa fosse só aquilo. Seja mais empática. Procure realmente sentir o que o outro está sentindo e compreender as causas de suas atitudes. Seja generosa com você e com o outro, reconhecendo e acolhendo os defeitos e buscando formas de transformá-los.
 
Relacionamentos positivos têm que ser nutridos, algo tem que ser feito para gerar bem-estar na presença do outro, para despertar o desejo da convivência. Pense na sua relação com seus familiares, amigos, colegas de trabalho e de outras comunidades das quais participa. Como você pode nutrir mais esses relacionamentos? Esses relacionamentos têm refletido seus valores (passo 1)? Quais forças de caráter (passo 5) você pode usar para melhorar suas relações? Você tem dedicado tempo de qualidade para conviver com as pessoas que ama? Como você se comunica com essas pessoas? Há expressão de afeto e carinho? Como você expressa o seu amor por essas pessoas? Você sabe de que forma essas pessoas se sentem amadas?

Você tem o hábito de elogiar e de reconhecer o que o outro faz de bom? Você tem praticado atos espontâneos de bondade (passo 2) com as pessoas com quem convive? Quando foi a última vez que você atendeu a um pedido de um familiar com satisfação e alegria, sem reclamar? Relacionamentos positivos são uma questão de escolha – escolher atitudes coerentes com o que desejamos para nossa relação com o outro e que vão produzir interações saudáveis. Somente assumindo a responsabilidade pela forma como tratamos o outro e pelas nossas reações diante das atitudes alheias é que podemos construir relações mais saudáveis e impactar positivamente o nosso bem-estar. E conforme você deve ter observado ao longo do texto, os relacionamentos são um terreno fértil para cultivarmos os outros passos que contribuem para nossa felicidade.

Então, se queremos aumentar o nosso bem-estar, não dá para descuidar das nossas relações, não é mesmo? 

*Yara Carvalho é pedagoga, psicopedagoga e especialista emocional. Tem pós-graduação em Psicologia Analítica e Psicologia Transpessoal e várias formações na área de desenvolvimento humano, inteligência emocional, relacionamentos interpessoais e Psicologia Positiva. É facilitadora de programas de autoconhecimento e desenvolvimento da inteligência emocional e de workshops para pais que desejam investir em seus relacionamentos familiares e na educação emocional dos filhos. 
 
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